Livres e frágeis
Por António Galamba
Não sei se há, além do cavalo do tempo, alguma coisa que possamos responsabilizar pela saudade. Acredito que os tempos vividos, ainda que em provável melancolia, foram sempre bons, pois faltavam viver todos os outros que nos trouxeram ao «agora». Sem embargo, reconheço-o, ver os meus filhos de talego na mão, percorrendo as ruas, gritando «Pão por Deus» como é uso pelas terras em que vivemos, humedece-me os olhos.
Recuo mais de trinta anos, ao espaço da imortalidade, reacendo a luz de Novembro coada pelos carvalhos, os gritos das infâncias, o cheiro a lareira, os sapatos gastos pelas bolas de capão, o nevoeiro da ribeira e um frio de piscos e rabirruivos povoando as bermas das estradas que percorríamos eufóricos. Ainda nos oiço … Ó tia, dá bolinho?

Lá em casa, a avó Mimi, a Zi e a mãe faziam a parte delas, ainda inocentes daquilo que haviam já marcado na memória: alguidares de broas de noz, bolos de mel e um paladar irrepetível que contribuiu muito para a infância feliz que agora recordo.
Éramos bandos de pássaros outonais, livres e frágeis – como a estação. Não sei, ainda hoje, o que buscáramos. Fome não era, pelo menos lá em casa. Talvez o gosto do ganho, da novidade, do doce mais raro do que agora, ainda que não faltasse. Hoje, depois da poesia, talvez vos dissesse que buscávamos a porta aberta. Talvez fossemos apenas pelo avental das amigas da avó, cheio das generosas migalhas que sempre são as da humildade. Nessas alturas ouvia minha mãe cantar “passarinhos a bailar, mal acabam de nascer” e ia guardando no saco as nozes, as romãs, a broa doce arrancada pelo trabalho às pedras e por nós à gentileza de quem sabe que na partilha não se esgota.
Há trinta e cinco anos, gente que eu nunca tinha visto, ou não tinha memória de ter visto, abria a porta para o bolinho e dizia-me, antes de qualquer outra coisa: Mas tu és filho da Livinha. Não sei se dos olhos, se do mesmo sorriso (quantas vezes perante os madrastos dias, mãezinha?) ou da ânsia de tagarelar como as toutinegras das sebes dos quintais. Reconheciam-me, nunca fui outro pássaro no dia um de Novembro.
Estas memórias, habilitadas pelo silêncio necessário para a reminiscência, são o abrigo mais fundo de mim. Visito-as amiúde, conquanto seja nelas onde guardo a ciência com que avalio o que vivo hoje. Não sei se apenas da idade, reflexo indomável da nossa passagem pelo tempo, mas sinto-nos menos próximos. Vivemos cada vez em menos espaço e aglomerados, como em gaiolas, em cima uns dos outros. Temos mais vizinhos, mas somos menos vizinhos. Temos, pensamos ter, mais posses, mas estamos desprovidos do tempo para outonar. Quem pode dizer que viveu sem provar destas broas, sem saber destes amarelos?
Ainda nos oiço, depois de olhar os plátanos… ó tia, dá bolinho?
Éramos livres e frágeis. Éramos pássaros.
Correio do leitor: antonio.galamba@gmail.com

