Esperança na vida eterna e comunhão com os defuntos

Por Padre Jorge Guarda

Vive-se intensamente hoje a morte dos familiares e amigos. As expressões físicas, sobretudo do rosto, revelam os sentimentos de tristeza e abatimento. As muitas mensagens, sobretudo nas redes sociais, manifestam proximidade e solidariedade aos familiares. Passado o tempo crítico, haverá quem esqueça facilmente a dor e outros em quem perdura, sem sarar, a ferida da perda. 

Cuidados especiais merecem as crianças atingidas pela morte de alguém querido. Num dia destes, numa reunião de pais falou-se disso. Sublinhou-se a necessidade de trabalhar a questão com elas, pois precisam de ser preparadas para lidar com a situação e superarem a dor da perda. Por vezes, são elas próprias que nos espantam com as suas expressões de fé. Leio num livro estas pérolas: “Tendo-me surpreendido a chorar de noite, depois da morte do seu pai, Ana, de 7 anos, imitando os meus gestos de consolação, diz-me: – Não chores, mãe! Verás o teu marido. Está com Deus. Seria tão belo que todos os 4 o fôssemos encontrar!”. E um menino de 7 anos pergunta: “Mãe, preferes morrer ou viver? Dás-te conta que se tu morresses, verias o Reino de Deus? Dás-te conta de que verias o rosto de Deus?”. Uma menina de 9 anos, confidencia: “Não me desagrada morrer, porque verei Jesus!”. Outra, de apenas 5 anos, na sepultura da avó, consola o pai, dizendo: “Não chores, pai. Enterram-na, mas reaparecerá” (La fede dei piccoli, p. 252-253). As crianças também ensinam e ajudam os adultos a lidar com a morte. 

A fé cristã afirma que a morte não é o fim de tudo, mas uma transformação da vida, que passa deste mundo para Deus e há de ressuscitar. A Bíblia fala da ressurreição com a metáfora da semente: o que se semeia não é o corpo que há de vir, mas um simples grão, que depois desponta e se manifesta numa nova vida. Escreve São Paulo: “Assim também acontece com a ressurreição dos mortos: semeado corruptível, o corpo é ressuscitado incorruptível; semeado na desonra, é ressuscitado na glória; semeado na fraqueza, é ressuscitado cheio de força; semeado corpo terreno, é ressuscitado corpo espiritual. Se há um corpo terreno, também há um corpo espiritual.” (1 Cor 15, 42-44).  

Nesta semana, nas igrejas e nos cemitérios, fazemos a comemoração dos fiéis defuntos. Respondemos assim às intuições da alma humana de que estamos ligados a eles, testemunhamos a fé de que “os mortos, que conhecíamos, se encontram agora junto de Deus” e de que, “a partir de Deus, acompanham-nos, ajudando-nos, e podem interceder por nós junto dele” (A. Grün). Na verdade, como escreve O. Fuchs: “No amor de Deus, os defuntos têm um coração muito maior do que tinham antes, aqui na Terra. Reconciliaram-se com o Senhor e também com eles próprios e com aqueles a quem não foi feita justiça”. Assim, “o nosso pai pode continuar a apoiar-nos a partir do Céu, a nossa mãe converte-se na imagem de amor e de segurança que Deus nos oferece” (A. Grün). 

A memória dos defuntos continua a fazer-se noutras ocasiões, participando na Missa. Escreve Anselm Grün: “Ao celebrarmos uma Eucaristia no aniversário de um familiar, estamos a manifestar o nosso sentimento de comunhão com o falecido. Lembramo-nos dele. Não nos esquecemos dele. Consideramo-lo uma parte de nós. Acreditamos que está junto a Deus. Sentimo-nos felizes por estarmos em comunhão com ele. Também podemos rezar por ele. Contudo, ao rezar por ele estamos também a rezar com ele. A oração está marcada pela confiança de que o defunto está junto do Senhor” (“O que vem depois da morte? A arte de viver e morrer”, p. 93). 

Se é verdade que a morte é sempre uma perda, também se pode tornar pela fé cristã um ganho, pois passam a ajudar-nos a partir da sua proximidade com Deus. A memória e comunhão com eles permite-nos ganhar mais confiança, esperança e paz na nossa vida quotidiana.