A PARTIDA DE UM ESTIMADO AMIGO- O “CHINA”
Por Prof. Mário Albuquerque
A saudade é um estado de espírito, genuinamente nacional, que brota, quase instintivamente, sempre que confrontados com algo que possa “mexer” nos mais íntimos sentimentos, como sejam ausências abruptas das nossas referências, dos valores que mais acalentamos, dos entes queridos mais próximos, enfim, de todas as simbologias e afectos, que identificam, e definem, o âmago, mais profundo, da nossa consciência.
Também, como o referem alguns consagrados “linguistas”, se pode apelidar de “mal de ausência”, uma forma diferente de exteriorizar, e viver, talvez com mais ênfase, idênticos estados de espírito.
Foi há escassos dias que um sobressalto, desta índole, me perturbou, e me deixou manifestamente abalado, quando tomei nota da partida, para outra dimensão espiritual, do “velho” conterrâneo de Alburitel, MANUEL VIEIRA SILVESTRE, mais conhecido no seu vasto círculo de amigos, do “CHINA”, um apelido carinhoso, e generalizado, nos meios onde era mais conhecido.
Uma mensagem inesperada, envolta de alguma sensibilidade e dramatismo, do César Dias, um acrisolado conterrâneo, trouxe-me a notícia, fria, arrepiante e perturbadora, embora soubéssemos que, há já algum tempo, o seu estado de saúde se encontrava bastante debilitado, com permanente retenção domiciliária.
O “CHINA” era um cidadão humilde, solidário e exemplar, com quem tive o ensejo de privar, quase em permanência, nos recuados tempos de juventude, ao tempo em que a ocupação dos tempos livres era muito limitada e pobre, porquanto estes eram consumidos, quase, exclusivamente, na prática do futebol, no velho campo da Cumieira, onde, sem treinadores, um pouco ao sabor da intuição de cada um, surgiram bons executantes que, ao nível concelhio, ombrearam com os melhores do tempo.
Um bom punhado de Atletas, aí “formados”, que mais se destacaram, poderia citar, mas focar-me-ei, por agora, no enorme, e valoroso, guardião “CHINA”, que tinha umas “mãos de ferro”, como então se dizia, e que, não fora ter nascido numa pequena aldeia, tão limitada de oportunidades e horizontes, reunia todas as condições para experimentar mais altos voos, pois qualidade e aptidão, para a função, não lhe faltavam.
Mais tarde, quando a idade adulta estava a chegar, deixou a sua terra, certamente com algum pesar e saudade, e rumou em direção a Lisboa, a Capital dos sonhos, em procura de melhores condições de vida, a exemplo de tanta gente que fez idêntico percurso, mormente no âmbito da emigração para terras de França.
Aprendeu em Alburitel a profissão de serralheiro civil, e foi com esta pobre bagagem que partiu e se afirmou, nas novas e exigentes paragens, em diferentes empresas que frequentou, sendo de sublinhar, entre outras, a enorme, ao tempo, Fundição de Oeiras.
Fixou-se em Sassoeiros, onde viveu muitos anos, tendo casado com a D. Isabel, residente naquela povoação. Sem deixar, contudo, de espalhar as suas reconhecidas capacidades desportivas, defendendo, com classe, as balizas de alguns Clubes do Distrito de Lisboa, onde sempre a sua presença foi muito apreciada e até disputada.
Apesar da sua ausência profissional e familiar, e dos muitos anos de afastamento das suas raízes naturais, nunca esqueceu o seu “berço”, como tantas vezes mo manifestou, numa inconfundível e saudável expressão saudosista, evocando animadas tardes de participado convívio comunitário, mormente quando toda a aldeia de orgulhava, e se mobilizava, massivamente, apoiando a sua juventude em torno de tantos eventos desportivos, com o sucesso então reconhecido.
O Manel – o “CHINA” – era mesmo um ídolo, não apenas pelas suas referidas, e singulares, aptidões, mas, sobretudo, ao abrigo da sua postura simples, fraterna e exemplar, evidenciando uma cidadania reconhecida, forjada nos tempos difíceis da sua vivência em terras, ao tempo pouco generosas, de Alburitel.
Tinha 89 anos (nasceu em 10 de Março de 1937), pelo que fica a saudade profunda, de tantos Amigos, nesta, inevitável, partida para a Eternidade.
O seu Corpo, após as adequadas cerimónias religiosas, seguiu para o crematório do cemitério de Alcabideche.
Consternado, apresento à Exma. Família, mormente Esposa e Filhos, a expressão das minhas mais sentidas condolências.
Descansa em Paz, AMIGO “CHINA”.

