Onde estão as nossas fronteiras?
Editorial por Francisco Pereira
Uma das realizações mais visíveis do projeto europeu é o espaço Schengen. Hoje, podemos atravessar a fronteira entre Portugal e Espanha, assim como a de outros países Europeus, sem parar num posto de controlo, muitas vezes sem sequer nos apercebermos de que acabámos de entrar noutro país. É uma liberdade que temos por adquirida e que mudou a forma como entendemos as fronteiras.
As nossas fronteiras já não estão apenas na linha que separa Portugal de Espanha, mas antes nas fronteiras externas dos países que, como nós, integram a União Europeia (UE). São as fronteiras que separam a Europa de países terceiros, a leste, a sudeste ou até a sul, no Mediterrâneo.
E é precisamente aí que vemos agora uma das fragilidades do projeto europeu, em que temos uma fronteira comum, mas ainda não temos uma política comum para a proteger ou para gerir a imigração.
O recente episódio de Ceuta é disso um exemplo perturbador. Dezenas de milhares de pessoas atravessaram, em poucas horas, a fronteira entre Marrocos e aquele território espanhol, situado no Norte de África. A dimensão do acontecimento colocou Espanha perante uma situação extraordinária e expôs, mais uma vez, a dificuldade da Europa em responder de forma unida a um problema que é de todos nós.
Mais preocupante ainda foi a reação de alguns Estados-membros, que rapidamente questionaram a atuação espanhola, em vez de demonstrarem solidariedade perante uma situação que ultrapassava claramente a capacidade de resposta de uma cidade com pouco mais de 80 mil habitantes.
Não sabemos ainda todas as circunstâncias que estiveram na origem do que aconteceu em Ceuta, nem se terá sido um ataque organizado ou uma operação dirigida contra a UE, mas percebemos que as fragilidades europeias podem ser exploradas por terceiros. A Europa aboliu as fronteiras internas e falta-lhe agora, e uma só voz, decidir de que forma quer controlar e proteger as suas fronteiras externas.

