Aqueles que partiram, aqueles que nunca deixaram de voltar…Aqueles que partiram, aqueles que nunca deixaram de voltar…
Por Afonso Lopes
A ideia para escrever este artigo surgiu depois de assistir a uma peça de teatro. No palco do Teatro Miguel Franco, em Leiria, o comediante franco-português José Cruz levou o público numa viagem muito particular a Portugal. Falou das viagens de carro que, durante décadas, milhares de famílias fizeram entre França e Portugal, das malas carregadas até ao último centímetro, das estradas intermináveis e daquele fenómeno quase inexplicável que fazia uma pequena aldeia portuguesa passar, em agosto, de poucas dezenas de habitantes para milhares. Saí do teatro a pensar numa coisa: quantas histórias estarão escondidas por detrás daqueles carros que todos os agostos atravessam a Europa?
Porque, hoje, vemos o emigrante chegar e pensamos nas férias. No carro novo, na matrícula francesa, no sotaque diferente, na casa que foi construída na aldeia. Mas, esquecemo-nos de que, antes de existir o regresso, existiu uma partida. E, para muitos portugueses, essa partida aconteceu nas décadas de 1960 e 1970, num Portugal pobre, rural, marcado pela ditadura e pela Guerra Colonial. Cerca de 900 mil portugueses emigraram para França durante essas décadas, muitos deles clandestinamente, no chamado «salto».
Imagine-se um jovem português a despedir-se da família sem saber quando voltaria. Não levava uma mala cheia de roupa, nem um bilhete de avião, nem uma certeza de que chegaria ao destino. Levava esperança. Muitos atravessavam clandestinamente a fronteira, guiados por passadores, atravessando Espanha até chegar a França. Era uma viagem marcada pelo medo. Medo da polícia, medo de ser descoberto, medo de não chegar. Mas, acima de tudo, havia outro medo: o de ficar em Portugal sem conseguir construir a vida que desejava.
Houve homens que partiram primeiro e deixaram mulher e filhos para trás. A ideia era simples: chegar, arranjar trabalho, encontrar uma casa e, quando fosse possível, mandar chamar a família. E assim aconteceu com tantas famílias portuguesas. Primeiro partia o marido. Depois, meses ou anos mais tarde, chegava a mulher. Os filhos ficavam, muitas vezes, entregues aos avós até que houvesse condições para reunir novamente a família. E há uma palavra que talvez explique melhor esses anos do que qualquer estatística: espera.
Esperava-se por uma carta; esperava-se pelo dinheiro enviado de França; esperava-se por uma fotografia; esperava-se pelo dia em que alguém finalmente dissesse: «Já podem vir»; E quando finalmente iam, começava outra batalha: a língua, o trabalho, o frio, a saudade, a adaptação. Muitos começaram na construção civil, nas fábricas, na agricultura ou em trabalhos pesados. Trabalhavam durante o dia e aprendiam a viver à noite. Construíam uma vida num país estrangeiro enquanto continuavam a pensar na terra que tinham deixado.
Mas, talvez a parte mais extraordinária desta história seja aquilo que fizeram por Portugal sem sequer viverem cá. O dinheiro que enviavam ajudou famílias inteiras: construíram casas, compraram terrenos, ajudaram os pais… mandaram dinheiro para os irmãos. E, pouco a pouco, transformaram também as próprias aldeias. A emigração tornou-se, efetivamente, parte da paisagem portuguesa.
E depois chegou agosto. Durante décadas, o regresso a Portugal tornou-se quase uma cerimónia. O carro era preparado com semanas de antecedência. A mala nunca tinha espaço suficiente. Levavam presentes para a família e traziam, no regresso, produtos portugueses que dificilmente encontravam lá fora. A viagem podia durar horas e horas. Havia filas, cansaço, crianças a dormir no banco de trás e adultos que conduziam quase sem parar. Mas, havia uma coisa que tornava tudo suportável: estavam a voltar.
A verdade é que quando vemos uma matrícula francesa numa estrada de Ourém, não estamos simplesmente a ver um carro estrangeiro. Estamos, muitas vezes, a ver o resultado de uma história que começou há mais de cinquenta anos.

