Para além do ruído (do movimento das mulheres conservadoras)

Por Cília Seixo

Assistir à apresentação do recém-criado movimento de mulheres conservadoras, promovido em Portugal com o apadrinhamento de deputadas do partido de extrema-direita, de movimentos fundamentalistas evangélicos e de correntes ultraconservadoras, não me surpreendeu particularmente. Não me surpreendeu porque tenho observado como, paulatinamente, em nome do medo do “caos civilizacional”, os arautos da desgraça defendem uma sociedade organizada e hierarquizada de acordo com os chamados valores tradicionais, defendendo o indefensável no que se refere às mulheres e raparigas. 

Uma das teses que mais me surpreendeu (e surpreendeu mesmo!) foi a defesa do chamado “voto familiar”, que considera que o homem deve votar como representante do lar, sendo o sufrágio feminino desnecessário, na medida em que o marido/chefe de família sabe o que é melhor para a mulher e para o lar. Depois, fui vendo e lendo, aqui e ali, mulheres, influencers, pastoras e figuras do movimento tradwife (traditional wife) a proclamar o afastamento progressivo das mulheres do espaço público. Por isso, este movimento já não é surpreendente. 

Em tudo isto, o que me espanta não é propriamente a ideologia — que, de algum modo, sempre existiu nos meios ultraconservadores —, mas sim a visibilidade, o tempo de antena e a divulgação que lhe são dados, além dos rios de dinheiro que a sustentam. Passámos da radicalização do wokismo para a radicalização da Alt-Right, um movimento ultraconservador americano emergido por volta de 2010 cujo objetivo é acabar com o conservadorismo tradicional de centro-direita (o chamado establishment) e reverter as transformações e conquistas sociais das últimas décadas. Consideram que foram essas conquistas, nomeadamente a entrada da mulher no mundo do trabalho e na esfera pública, as responsáveis por aquilo que designam de caos civilizacional. 

A ideia de que vivemos num caos civilizacional e a de que a responsabilidade é da igualdade de direitos das mulheres são teses que me preocupam pela facilidade com que são divulgadas, repetidas à exaustão e encontram eco na insatisfação, no mal-estar, no ressentimento e na raiva do mundo que o algoritmo alimenta. 

Ao contrário da mensagem que frequentemente é passada, não se trata de liberdade de ação, de opção ou de expressão quando se criam e divulgam estes movimentos. Nunca nenhuma mulher (ou homem) foi proibida de ficar em casa a cuidar dos filhos e do lar, e muito menos de expressar a vontade ou o desejo de o fazer. A democracia deu-nos essa garantia. Em contrapartida, a agenda política de extrema-direita, associada a movimentos religiosos fundamentalistas, usando essa falsa ideia de liberdade, tem apenas um objetivo: alcançar o poder político e, obviamente, pagar às clientelas que a sustentam. 

E é aqui que entra o meu desassossego: o “efeito massagem” desta ideologia através das redes sociais e dos meios de comunicação vai moldando as conversas, o pensamento e o sentido de voto das massas. 

Não nos iludamos: não se trata de uma preocupação genuína com a família ou com o bem-estar social. Trata-se de um cálculo político, alimentado por uma máquina mediática e algorítmica que visa pescar o eleitorado mais radicalizado, em particular a crescente franja evangélica e neoconservadora. É a instrumentalização dos direitos das mulheres como moeda de troca eleitoral para a extrema-direita alcançar e consolidar o poder. 

E trazer para a ribalta a questão sensível do aborto é prova disso: mulher ou homem nenhum é a favor da prática do aborto como um fim em si mesmo, apesar desta prática sempre ter existido! Mas, exatamente por isso, porque sempre existiu e durante séculos condenou à dor, ao sofrimento e à morte tanta mulher, qualquer ser humano com um mínimo de empatia, será favorável a uma lei que, não o/a obrigando a praticar um ato que ponha em causa as suas crenças e convicções, permite a uma menina ou mulher que foi violada escolher interromper a gravidez em segurança. Isso sim, é ser a favor da vida! Da vida já existente e sofrida dessa mulher e/ou dessa menina! 

Como mulher, mãe, professora e psicóloga, ver a voz que as mulheres demoraram séculos a conquistar ser usada para pregar a resignação, a submissão e a perda de autonomia incomoda-me e desassossega-me. Questionar direitos fundamentais e aceitar a sua erosão em favor da “tradição” é abrir a porta a um tempo que nenhuma mulher com discernimento quererá recordar e muito menos viver!