Zé Luís: um “Bombeiro” muito especial 

O Zé Luís é já uma daquelas figuras que marcam as cidades, aquele que todos conhecem e, neste caso, a sua ligação aos bombeiros acaba por lhe dar ainda mais visibilidade. Acarinhado por todos, encontrou um lar no quartel de Ourém, que permitiu o seu desenvolvimento cognitivo, apesar de continuar uma eterna criança. 

Aurélia Madeira

O Zé Luís nasceu diferente e, como diz Mário Costa Pereira, é uma eterna criança, que acabou por ficar nos bombeiros graças ao “Márito”, como é conhecido Mário. 

Era, pois, este bombeiro, agora reformado, que tínhamos que ouvir primeiro, mas, antes de o ouvir falar sobre o Zé Luís, pedimos-lhe que nos contasse a sua ligação aos bombeiros. Márito recorda que começou a trabalhar muito jovem, na oficina da Mercedes, onde trabalhou 12 anos, ingressando depois nos bombeiros, mas continuando a trabalhar na Mercedes. Posteriormente, é convidado a tornar-se funcionário dos bombeiros, “como motorista e mecânico”, uma posição que aceitou após três reuniões com a direção, pedindo “16 contos de salário, há 46/47 anos”. Recorda que, à época, “havia a necessidade de um motorista com carta de pesados e, preferencialmente, mecânico. Como possuía os requisitos necessários para a vaga, ele que “nunca tinha pensado em ser funcionário dos bombeiros, apenas gostava de ser bombeiro”, acabou por aceitar a proposta de emprego. 

Zé Luís e a chegada aos bombeiros 

Sobre a sua relação com Zé Luís e sobre como este chegou aos bombeiros, Márito explica que os dois, praticamente, cresceram juntos, pois moravam na mesma rua, em Ourém. Conta então que o Zé Luís tinha um irmão que passava muito tempo no quartel. “Esse irmão aparecia frequentemente por lá, embora não tivesse grande jeito ou iniciativa para fazer tarefas quando lhe eram pedidas”. 

Eis então que, um dia, o Zé Luís apareceu, acompanhado pelo irmão. Márito recorda que estava “a trabalhar numa viatura de incêndio, a reparar os travões”, e precisava de alguém que carregasse no pedal enquanto ele trabalhava debaixo do veículo, na fossa. Pediu então a Zé Luís que se sentasse no interior da viatura e carregasse no pedal do travão quando lhe fosse indicado. Zé Luís cumpriu as instruções, carregando e libertando o pedal conforme lhe era pedido. A partir desse momento, o então jovem Zé Luís, não mais deixou os bombeiros. Era tempo de férias escolares e passou a apresentar-se, todos os dias, no quartel. O problema foi o final das férias. Zé Luís deveria voltar ao Centro de Reabilitação e Integração de Fátima (CRIF), mas recusou-se fazê-lo e, face à sua insistência, acabou por ficar, apresentando-se, todos os dias de manhã, no quartel dos Bombeiros de Ourém, encarando essa presença “como se fosse um emprego”. 

Com o passar do tempo, sorri Márito ao contar, “o Zé Luís criou uma forte amizade com os bombeiros”, acabando por assumir uma espécie de papel protetor, procurando que “ninguém se aproveitasse dele ou o tratasse mal”. Acaba por se tornar “praticamente como um pai para o Zé Luís”, que andava sempre consigo e se sentia acarinhado no quartel. 

Contudo, explica, para que Zé Luís permanecesse integrado naquele ambiente, era necessário “tratá-lo com atenção especial, quase como uma criança”. Ele próprio correspondia a esse carinho e tinha uma boa perceção das pessoas que lhe eram próximas. Com os anos, conta Mário, “deixou de se relacionar indiscriminadamente com todos os bombeiros e passou a distinguir quem considerava verdadeiramente seu amigo”, mas “havia muitos bombeiros de quem ele gostava e com quem tinha criado laços fortes”. 

Quando o Zé Luís chorou 

Costa Pereira recorda um episódio que o marcou profundamente. “Na época, passava grande parte do dia a reparar viaturas dos bombeiros. Estava dentro de uma viatura de incêndio, daquele tipo que tem uma cabine dianteira e uma zona traseira”, quando pediu a Zé Luís que lhe passasse uma chave que estava dentro do veículo. 

Por qualquer razão de que já não se lembra, acabou por ralhar com Zé Luís e levantou um pouco a voz. Pouco depois deixou de o ouvir e, quando se levantou para perceber o que se passava, encontrou-o dentro da viatura a chorar. Ficou profundamente abalado ao perceber que tinha feito chorar aquela pessoa que considerava praticamente uma criança. Diz que se sentiu muito mal consigo próprio e que aquele momento o deixou revoltado consigo mesmo. Aproximou-se então de Zé Luís para o acarinhar e, a partir daquele episódio, afirma que nunca mais voltou a gritar-lhe. 

Este episódio reforçou a sua perceção de que Zé Luís continuava a ter uma natureza muito infantil, apesar da idade, e de que era uma pessoa extremamente bondosa. Atualmente, descreve-o como uma espécie de “moço de recados” dos bombeiros. 

O papel de Zé Luís no quartel  

Apesar da sua função informal, Zé Luís continua muito presente no quartel. Márito conta que ainda hoje ele vai ter consigo, incluindo quando o próprio se desloca aos bombeiros para tratar de assuntos relacionados com as viaturas.  

Segundo Márito, “o Zé Luís tem um conhecimento muito particular da oficina e das viaturas”. Conhece a organização do espaço de tal maneira que sabe onde está praticamente tudo, e não deixava ninguém mexer nas ferramentas sem a sua autorização.  

O apoio dos comandantes e a permanência nos bombeiros 

A permanência de Zé Luís durante tantos anos nos bombeiros é atribuída também ao carinho e à proteção que recebeu das pessoas responsáveis pelo quartel. “O atual comandante gosta muito dele, tal como o anterior, Julito (Júlio Henriques), também gostava. É precisamente essa rede de relações e o facto de ser querido dentro da corporação que permitiram que Zé Luís permanecesse ali durante tantos anos.  

De uma coisa parece não existirem dúvidas para ninguém: a permanência nos bombeiros acabou por ser benéfica e contribuir para o desenvolvimento de Zé Luís. É que, através da convivência diária, da amizade e do cuidado recebido no quartel, Zé Luís encontrou um espaço onde se sente protegido, útil e integrado, acabando por criar uma ligação tão forte aos bombeiros que não quis mais afastar-se deles. 

Atualmente, Márito já não está, diariamente, nos bombeiros, mas o Zé Luís continua por lá, sempre muito ligado ao Verguinhas, o cão mascote dos Bombeiros, cuja responsabilidade é sua, e também muito na oficina, acompanhado por Jorge Braz que nos sublinha o que havia dito Márito: “o Zé Luís sabe onde estão todas as ferramentas, sabe ir buscar o que é pedido e conhece os cantos à casa, sabe fazer certas coisas que são pedidas, é sempre colaborante e uma presença assídua que ajuda a fazer recados…”. 

Diz ainda que ele “é um jovem porreiro, que às vezes amua um bocadinho”, mas “é um bom auxiliar e colabora connosco, ajuda com as ferramentas e a lavar os carros”. 

No final falámos com o próprio. Apesar das dificuldades em expressar-se, percebemos que ele é feliz naquele local que o acolheu, que o faz sentir-se útil, uma pessoa como as outras. Afinal, somos “todos diferentes, todos iguais”…