O Fair Play
Por João António
Sentei-me junto da baliza depois de sofrer mais um golo. Tinha chegado a hora de jogarmos contra os profissionais. O ritmo, a cadência, as jogadas, tudo ali era estudado, tudo ali era altamente calibrado para golear equipas de amadores que treinavam nos veteranos às quintas. Virei-me para as bancadas, para quem vinha ver aqueles jogos, e o ânimo era geral. De quem seria, afinal, a culpa? Dos próprios jogadores? Dos que lhes pagavam? Da organização? A organização não poderia fazer nada, certamente. Não era a derrota que custava, era qualquer coisa mais subtil — a sensação de que aquilo podia ser diferente, não tão sério, que também teria o seu mérito, mas mais nosso.
Sempre me deixara levar por esse espírito, pela ideia de que, no final de contas, importa é participar, essa frase batida dos tempos do Tsubasa, mote maior do desportivismo. Uma pessoa regressava ao balneário e ria-se desalmadamente, batia palmas a falhanços, gritava “Muito bem!” depois da bola sair, ia com as mãos à cabeça depois de uma falta aparvalhada, e ria, ria perdida e desalmadamente depois dos jogos. Lá se ia beber uma cerveja, comia-se uma sandes mista e afogavam-se as mágoas nas piadas que ficavam. No fundo, esse era e continua a ser o valor real do desporto.
Hoje em dia, devíamos era criar uma liga do fair play, uma espécie de pequena liga dentro da liga dos amigos, que prime pelo gosto da modalidade, pelo convívio, pelo grupo, que fuja da competição desmesurada, dos títulos irreais, das taças vazias, dos egos… e podem chamar-me iludido, exagerado até, mas eu vejo isto assim, esta coisa de agarrar na malta e rir, pontapear a bola para onde for, atirar a raquete ao chão, cair de joelhos na relva e sorrir por estar ali, estando a ganhar ou a perder. Saber sorrir, no final de contas, é o que verdadeiramente importa e permanece.
E talvez seja isso que ninguém nos ensina quando somos novos e ainda acreditamos que ganhar é tudo: mas o desporto, o verdadeiro, o que fica, não cabe em nenhuma tabela classificativa. Cabe nas histórias que se contam anos depois, na memória de um golo inesperado que toda a gente celebrou como se fosse no Estádio da Luz, de uma defesa que nem o guarda-redes sabe muito bem como fez. É aí que mora o fair play — não num regulamento, não numa medalha, nem sequer na taça, mas nessa coisa simples e teimosa de continuar a aparecer apenas porque vale a pena.
