A pressa que Molero nunca teve  

Por João António 

Em meio ao verão, nas férias de um estrangeiro novo, por descobrir, vejo a pressa por chegar algures e partilhar esse algures com outros tantos. A pressa por mostrar, nesse mostrador popular que é a rede social, o belo oceano que se avizinha à nossa frente, depois de cruzarmos o mesmo oceano num avião, o mesmo oceano que banha o nosso país desde sempre. E penso, e não consigo não recordar, Dinis Machado, e a viagem impressionante do Rapaz, inesquecível personagem do grande livro deste escritor, da obra que nos faz viajar para algures, nenhures, e ouvir “O Que Diz Molero”. 

Este narrador-investigador-viajante diz-nos, logo no início do livro, uma frase memorável, fantasiosa, que roça a magia. Diz ele, Molero, a páginas zero, no seu longo relatório que se traduz no próprio livro, diz ele, repito: “Ó país de cristal, que longe eu estou, dava um ano de ordenado por um momento da minha inocência perdida”. E ao lermos isto, inocentes leitores, ficamos imersos. Dinis Machado, com um único golpe, cerca-nos e aprisiona-nos na liberdade das suas palavras. Quem se lembraria de uma frase como esta? E quem se poderia esquecer dela? 

Este homem, que nos escreve sobre uma viagem pelo mundo de um Rapaz, personagem assim nomeada, nunca saiu de Lisboa e, no entanto, viajou por ínfimos mundos, muitos mais mundos do que o mundo, por si só, tem para oferecer. O mundo, por muito que se corra, será apenas o mundo, mas Dinis Machado nunca correu, leu! E ler permite essa viagem infinita por sabe-se lá onde. É um aeroporto interminável, uma estrada com paragens sem fim, um oceano que faz nascer outros tantos, momento após momento. O Molero, quando diz ao país de cristal que está longe, estará onde? Está nesse espaço estranho, efabulado, místico, que só os ávidos leitores conhecem e cumprimentam serenamente. 

A viagem do Rapaz, que a dada altura será também a viagem de Molero, contrariamente às viagens que tanto se apregoam nesse mostrador de que inicialmente falava, parece ser uma viagem demorada, que leva anos e anos a fio, que não tem pressa para chegar onde quer que seja. O Rapaz, esse aventureiro sobre quem lemos, é perseguido, com a naturalidade de uma vida, por Molero, que lhe dedica um tempo que nem nós, leitores, conseguimos perceber bem. A viagem do Rapaz, será, na verdade, impossível do ponto de vista físico, o Rapaz, na verdade, nunca terá feito tudo aquilo que diz Molero, pelo menos, não o terá feito do ponto de vista factual, comprovado. Mas que importa isso? Isso, ensina-nos o Dinis Machado, não importa, porque a verdadeira viagem a realizar é aqui, nesta pequena praça, na “terra inteira” que é “este bairro e este sonho”, que já conhecemos bem, onde o nosso nome, escuro, gasto, sujo, permanece calcetado de forma muito irregular, mas bonita.