Tempo livre
Por João Filipe Oliveira
Era eu um adolescente, quando comecei a ouvir falar da “semana inglesa” para os trabalhadores. Ia a década de 70 a meio ou mais, o 25 de Abril ia deixando entrar essas novidades, que lá fora na Europa já se praticavam há alguns anos. Em vez de trabalhar seis dias por semana, o sábado à tarde ficava livre. Trabalhava-se cinco dias e meio e descansava-se um pouco mais. Umas décadas mais tarde assistimos à generalização da semana de 40 horas, cinco dias por semana. E isso acabou por ser natural e não ser drama nenhum. Sinal de progresso.
Mas as previsões económicas de há 60 anos, iam mais longe, indicavam que no final do século XX já se teria chegado à semana de 4 dias de trabalho. E mesmo a caminho de chegar aos 4 dias de folga. A introdução de máquinas e de tecnologia deveria permitir produzir o mesmo ou mais, com menos horas de trabalho. Cruzei-me com essas previsões pela primeira vez poucos anos depois do meu primeiro emprego. E pareceu-me que tinha toda a lógica. Depois das máquinas invadirem os locais de trabalho manual, naquela época os computadores pessoais já começavam a revolucionar as tarefas burocráticas, tornando tudo mais fácil e mais despachado.
Podemos recuar até 1930, década em que o economista britânico John Keynes já imaginava uma sociedade futura onde a principal dificuldade não era produzir bens, mas sim saber o que fazer com tanto tempo livre.
Em parte, as previsões foram acertadas. Comparando, por exemplo, a agricultura que se fazia há 50 anos com a atual, é evidente que há agora muitíssimo mais produtos com muitíssimo menos trabalho humano. Um trator faz num dia o que dezenas de trabalhadores demoravam uma semana a fazer. Seja na sementeira, seja na colheita, ou na rega, monda e todo o ciclo.
Só não se cumpriram inteiramente os prognósticos, porque continuamos atrasados na parte do lazer: redução da semana de trabalho tarda em acontecer. O aumento de produtividade não tem aliviado o esforço, tem sido usado para aumentar os lucros. Os donos das máquinas que fazem a maior parte do serviço não reduzem o horário, limitam-se a empregar menos pessoas, porque não têm necessidade de mais.
O famoso “Pacote Laboral” (e as negociações que não chegaram a lado nenhum) também tem passado por este tema. Quando os sindicatos propuseram a semana de trabalho em 35 horas e a recuperação do número de dias de férias para 25, como já era antes da Troika, não estavam propriamente a inventar a roda, nem a avançar com medidas irrealistas. Tudo isto está previsto para um futuro que se tem vindo a adiar.
Afinal, não é por acaso que os setores do turismo e da cultura já são tão importantes na economia. A sociedade do ócio e do lazer é mesmo o futuro. Só precisamos é de políticos com capacidade de antecipar sem desculpas o que está para vir.

