Cante e Cleópatra
Por António Lains Galamba
É antiga a ligação que me prende ao Alentejo. Cedo aprendi a amar a planície muito além da poalha levantada no caminho sem fim que nos levava às praias do sul. Quando saí de Ourém, rumo à faculdade, em Lisboa, descobri também a proximidade do comboio (e das amizades) que me levavam a Beja, capital do restolho (onde nos deitávamos para ver as estrelas) e da resistência – como ternamente a intitulavam os corações que aprendi a amar. Conheci os trilhos do pão e da exploração. Conheci ex-presos políticos. Fiz-lhes amizade com a mesma profundidade onde ma nutriam. Conheci a dignidade. Suei a canícula impossível das noites de Agosto, e o aconchego do pão no talego e das migas fazendo cagulo, em Janeiro, na travessa que dois dedos empurravam, discretamente, para junto do meu apetite ou do meu possível acanhamento. Quem conhece as gentes do sul sabe do que falo e das lágrimas dessas memórias. Lá conheci o pão amolecido com o molho dos olhos e a Reforma Agrária. Em Aljustrel, onde trabalhei como antropólogo do Museu Municipal, fiz-me militante do Partido Comunista Português pelas mãos do meu querido e saudoso Francisco Nilha. Em Aljustrel conheci a coragem.

Foram tempos felizes, esses. Estão reflectidos nalguns trabalhos de antropologia e etnomusicologia entretanto publicados. Acontece que ouvi o Grupo Coral dos Trabalhadores de Ferreira do Alentejo a cantar e a profunda comoção provocada pela polifonia, coroada pelo melhor alto que ouvi na vida (João Lota, meu querido Carnau) prendeu-me de imediato cidadão daquele chão. As minhas quintas – feiras, dia do ensaio, passaram a ser o dia ansiado toda a semana. Falo, pois, com a autoridade emprestada da camaradagem e do companheirismo. Um dia, fui um deles. Deixei de ser o público, o estranho. Quebrei as barreiras que qualquer desconfiança poderia ter levantado. Comi ao mesmo balcão, cantei as mesmas modas, chorei as mesmas inquietações, emudeci partilhando o luto. Soube do Cante. Soube do cante, mas do cante! Não o etnicizado pela necessidade do Estado Novo ou dos novos padrões inaugurados pela democracia. Soube do cante livre, fui do cante naquilo que James C. Scott intitulou Assembleia dos Dominados. Cantei a polifonia onde vive a polifonia, na manutenção da consciência de classe e de resistência. O cante com um fim! O do gregarismo, da construção e manutenção de consciência e solidariedade de classe. O Cante como manifestação cultural dos dominados perante os dominantes. O Cante é polifonia, mas não apenas do som. O cante é a consciência colectiva ecoando perante a planície (o mundo!) dominado pela injustiça provocada pelo poder económico que nos divide em classes.
Aquilo que se apresentará à Europa após ter vencido em Portugal a etapa que lá o coloca pode ser muita coisa. Será, não o nego, a POPularização de uma manifestação cultural. Será o afinamento (será?) de quatro ou cinco rapazes que cantam em grupo, mas não em polifonia. Será digno de ser gostado. Será o que provocar no coração de cada um. Mas não é cante. Primeiramente, porque sendo a vozes não é polifónico. E depois, principalmente, porque para vencer na roldana do sistema se despiu daquilo que faz, primordialmente, da polifonia Cante: demitiu-se da empatia, furou a luta da arte e dos artistas que antecipadamente se negaram a representar o país onde estivessem representantes do governo sionista e genocida que domina Israel.
Para ser cante, invertendo o ditado, não basta parecê-lo. É preciso sê-lo. E as gentes do Cante – desse cante colectivo e polifónico que aqui trago – sei-o bem, estão com a humanidade.
