Quando a tempestade chega o primeiro socorro somos nós 

Por João Caldeira Heitor  

A tempestade Kristin deixou em muitas pessoas uma sensação difícil de explicar: durante alguns dias percebemos que aquilo a que chamamos “normalidade” é, na verdade, uma construção frágil.  

Bastam algumas horas de vento forte, telhados arrancados, árvores caídas e cortes de eletricidade para que aquilo que parecia garantido: comunicações, água, luz ou acesso à informação, desapareça quase instantaneamente. 

Quando isso acontece, a perceção de segurança altera-se. De repente, percebemos o quanto dependemos das infraestruturas e dos sistemas que organizam a vida contemporânea. E surge uma pergunta simples: o que sabemos realmente fazer quando tudo falha? 

A resposta nem sempre é confortável. Ao longo das últimas décadas habituámo-nos a uma sociedade altamente organizada, onde existe sempre uma instituição responsável por resolver os problemas. Há bombeiros, proteção civil, serviços municipais, empresas de energia… Essa rede institucional é essencial e continuará a ser a primeira linha de resposta em qualquer crise. Mas existe uma dimensão menos discutida: a capacidade de autoproteção dos próprios cidadãos. 

Em vários países europeus esta dimensão passou a ser considerada parte integrante das políticas públicas de proteção civil. A lógica é simples: perante fenómenos extremos (tempestades, incêndios, cheias ou falhas prolongadas de infraestruturas) a primeira resposta acontece sempre ao nível das pessoas e das comunidades. 

A União Europeia tem sublinhado a importância de reforçar a preparação da população para situações de emergência, recomendando que as famílias tenham autonomia básica durante as primeiras 72 horas de uma crise. Países como a Suécia ou a Finlândia distribuem regularmente guias públicos explicando como agir perante tempestades, falhas de energia ou outras situações críticas. 

“(…) a verdadeira resiliência de uma sociedade não depende apenas das instituições, mas também da preparação das pessoas. E essa preparação começa quando cada um de nós percebe que pode, e deve, ser, no seu quotidiano, um agente de proteção civil” 

Mas esta preparação começa em coisas muito concretas do quotidiano. Saber, por exemplo, o que se pode ou não fazer quando uma árvore cai na via pública, quando um telhado começa a desprender-se com o vento ou quando uma inundação atinge uma casa. 

O mesmo acontece dentro das próprias habitações. Muitas pessoas não sabem, por exemplo, quando devem desligar o quadro elétrico numa situação de inundação ou infiltração de água, nem quais são os riscos associados à eletricidade em ambientes húmidos. Pequenos conhecimentos básicos como saber cortar a energia, reconhecer sinais de perigo estrutural ou proteger provisoriamente uma cobertura, podem evitar acidentes e reduzir danos. 

Talvez ainda mais importante seja a dimensão comunitária. Quando surgem situações extremas, as primeiras redes de apoio não são as instituições, mas sim os vizinhos, os familiares, os amigos e as comunidades. 

Os episódios recentes mostraram isso com clareza. Houve quem ajudasse a cobrir telhados, quem cedesse equipamentos, quem levasse água ou alimentos a quem estava isolado. Pequenos gestos que revelam algo essencial: a proteção civil também se constrói entre cidadãos. 

Num contexto em que os fenómenos meteorológicos extremos tendem a tornar-se mais frequentes, talvez esteja na altura de olhar para esta questão de forma diferente. 

Porque a verdadeira resiliência de uma sociedade não depende apenas das instituições, mas também da preparação das pessoas. 

E essa preparação começa quando cada um de nós percebe que pode, e deve, ser, no seu quotidiano, um agente de proteção civil.