Afonso Gaio: o génio esquecido de Ourém
Por Afonso Lopes
Há nomes que a História escreve em letras grandes; e, há outros que, injustamente, deixa cair nas margens do esquecimento. Mas, por vezes, é precisamente nesses nomes esquecidos que se escondem as histórias mais surpreendentes, mais humanas… e, talvez, mais verdadeiras. Em Ourém, existe um desses casos. Um homem que nasceu no meio da adversidade, que cresceu na sombra da perda e da miséria, e que, ainda assim, construiu uma obra vasta, intensa e digna de reconhecimento. Um escritor que fez da dor matéria-prima para criar; e, que o tempo, ou talvez nós, insistimos em ignorar.
Para compreender a dimensão desta figura ímpar da nossa História, é essencial recuar às suas origens familiares. O seu pai, Joaquim Gomes Vieira Gayo, nasceu por volta de 1814/1815 no Reguengo do Fetal, no concelho da Batalha. Formado em Direito pela Universidade de Coimbra entre 1839 e 1840, integrou uma geração marcada pelas profundas transformações políticas do século XIX. Viveu, portanto, no rescaldo da Revolução Liberal de 1820 e num contexto ainda influenciado pelas invasões francesas.


Fixando-se em Ourém, Joaquim Gayo desempenhou funções como juiz, mas rapidamente ascendeu a cargos de maior responsabilidade. Foi o sétimo administrador do concelho de Ourém, exercendo funções entre fevereiro de 1847 e dezembro de 1848. Nesse mesmo ano, assumiu também o cargo de comandante da guarda de segurança do concelho. Mais tarde, esteve ligado à administração das matas nacionais, nomeadamente ao Pinhal do Rei, e desempenhou funções como administrador da Casa de Bragança: um percurso que demonstra a sua relevância na estrutura administrativa da época.
No entanto, a sua vida pessoal foi marcada por um desfecho trágico. Teve o seu último filho (Afonso) já com cerca de 58 anos, em 1871/72. Pouco tempo depois, faleceu em 1873/74, deixando a família mergulhada em dívidas e numa situação de profunda miséria. Affonso Henriques Vieira Gayo (como se escrevia o seu nome à época) cresceria, assim, privado da figura paterna e num contexto de grande fragilidade económica.
Nascido em Ourém, a 25 de outubro de 1871, Afonso era filho também de D. Maria da Glória Franco Gayo. A sua infância foi tudo menos fácil. A 21 de dezembro de 1879, com apenas oito anos, foi internado na Casa Pia, em Lisboa (instituição destinada a acolher crianças em situação de vulnerabilidade). Este episódio, longe de ser um detalhe, ajuda a compreender a densidade emocional e a sensibilidade que mais tarde se manifestariam na sua obra.
Apesar das adversidades, Afonso Gaio construiu um percurso literário notável e surpreendentemente vasto. Como romancista, deixou duas obras: «Os Novos» e «O Poder do Ódio». No campo da prosa, escreveu ainda contos, crónicas e conferências, o que demonstrou uma versatilidade pouco comum. Enquanto dramaturgo, produziu cerca de vinte peças de teatro, o que o afirmou como uma figura relevante neste género. Já na poesia, publicou cinco livros, sendo a sua última obra intitulada «Os Escravos». O seu pensamento foi influenciado por Antero de Quental, inserindo-o numa corrente literária marcada pela introspeção e inquietação filosófica.
Entre as suas obras mais relevantes destaca-se a peça teatral «O Condenado», estreada a 19 de março de 1917. Esta obra alcançou um sucesso significativo. Foi amplamente apreciada e considerada, por muitos, como uma das melhores produções originais portuguesas da sua época. Contou com a colaboração de figuras de relevo cultural, como Almada Negreiros, e há indícios de que poderá ter contribuído para o desenvolvimento inicial da ligação entre teatro e cinema em Portugal, ainda que não existam registos fílmicos da mesma. No cartaz desta peça podemos sublinhar o seguinte excerto: «O nome de Afonso Gaio é um dos que mais brilham no nosso meio literário. Jornalista, e escritor igualmente distinto, a sua atividade é grande, produzindo constantemente, sem que, todavia, esta febre de produção afete o escrúpulo e a probidade do seu trabalho».
No domínio da poesia, a obra «Nós», publicada a 8 de maio de 1900 pela Livraria Editora Guimarães, Libânio & C.ª, assume particular importância. Trata-se de um poema lírico composto por catorze textos; entre os quais «Espectro», «Realidade», «Saudade», «Ardor», «Desilusão», «Ausência» e «Claro-escuro». A obra apresenta uma complexidade temática e estrutural significativa. Embora, no seu conjunto, seja dedicada à figura da amada, cada poema parece dirigir-se a diferentes destinatários, o que levanta dúvidas sobre o verdadeiro significado do título: será um «nós» íntimo e amoroso, ou uma pluralidade de relações e experiências?
O prefácio reforça esta ambiguidade e profundidade emocional. Nele, Afonso Gaio recorre a uma citação de Paul Verlaine: «Je fais souvent ce rêve étrange et pénétrant d’une femme inconnue…». Esta evoca um amor idealizado e quase onírico. A dedicatória que se segue apresenta a mulher como figura salvadora, um refúgio face às adversidades da vida, descritas como uma «chuva de desgraças».
Curiosamente, um dos exemplares conhecidos desta obra contém uma assinatura enigmática: “Victor d’Almeida, 31 de outubro de 1912, Lisboa”. Apesar de não existirem informações sobre esta pessoa, o detalhe revela que a obra circulou para além de Ourém e continuou a ser lida anos após a sua publicação, o que testemunha um alcance que hoje dificilmente se reconhece.
A relevância de Affonso Gayo não passou totalmente despercebida ao longo do tempo. Em 1960, a escritora Lita Scarlatti publicou «Afonso Gaio (O Homem e a sua obra)», uma das mais importantes tentativas de estudar e preservar o seu legado.
Afonso Gaio faleceu a 1 de dezembro de 1941, aos 69 anos. Deixou para trás uma obra singular, rica, diversificada e profundamente marcada pela experiência pessoal. Foi jornalista, compositor e escritor: um homem das letras no sentido mais completo do termo.
