Católicos e Muçulmanos devem respeitar-se mutuamente

Por Padre Jorge Guarda

Fomos surpreendidos recentemente pela notícia de que, em Ourém, um indivíduo entrou indevidamente num espaço de oração de muçulmanos, pegou no livro sagrado e fez outros atos de desrespeito em relação a eles, divulgando em vídeo a sua má ação. O objetivo de fazer publicidade a um livro e pronunciar-se contra a imigração não justifica de modo nenhum o ato condenável que praticou. O espaço de oração dos muçulmanos como o do cristão ou de qualquer outra religião merecem o mesmo respeito. Manifesto por isso aqui a minha condenação do abuso e a solidariedade para com os fiéis muçulmanos ofendidos. O mesmo já fiz em mensagem àquela comunidade. 

A defesa da cultura e identidade portuguesas não se pode fazer contra a imigração e menos ainda difundindo o medo em relação aos outros, por serem diferentes de nós. Faz parte da identidade histórica portuguesa a saída da nossa pátria para ir pelo mundo além e o acolhimento e integração de gente de muitos e variados povos e religiões. A nossa identidade é dinâmica, requerendo tanto o aprofundamento dos nossos valores e o modo de encarar e estar no mundo como a capacidade de dialogar, partilhar dons com os outros e a capacidade de acolher e integrar os que nos trazem de outras paragens.  

Do ponto de vida religioso, vivemos num mundo aberto e de diálogo e partilha de valores e experiências. Se nos cabe partilhar com outros as nossas convicções cristãs, também devemos procurar conhecer os valores e modos de crer de que os outros são portadores.  

Em relação aos muçulmanos, em concreto, a Igreja Católica, no Concílio Vaticano II, publicou uma declaração sobre a sua relação com as religiões não cristãs. Valorizando o que nos une e repudiando a animosidade e ódio doutros tempos, ali se declara: “A Igreja olha também com estima para os muçulmanos. Adoram eles o Deus Único, vivo e subsistente, misericordioso e omnipotente, criador do céu e da terra, que falou aos homens e a cujos decretos, mesmo ocultos, procuram submeter-se de todo o coração, como a Deus se submeteu Abraão, que a fé islâmica de bom grado evoca. Embora sem o reconhecerem como Deus, veneram Jesus como profeta, e honram Maria, sua mãe virginal, à qual por vezes invocam devotamente. Esperam pelo dia do juízo, no qual Deus remunerará todos os homens, uma vez ressuscitados. Têm, por isso, em apreço a vida moral e prestam culto a Deus, sobretudo com a oração, a esmola e o jejum. E se é verdade que, no decurso dos séculos, surgiram entre cristãos e muçulmanos não poucas discórdias e ódios, este sagrado Concílio exorta todos a que, esquecendo o passado, sinceramente se exercitem na compreensão mútua e juntos defendam e promovam a justiça social, os bens morais e a paz e liberdade para todos os homens.” (NA, n. 3) 

É nesta atitude que nos devemos situar: respeitar os outros e exigir que façam o mesmo em relação a nós. E ainda procurar todas as oportunidades para o encontro, partilha e conhecimento mútuo. É assim que construímos aquela fraternidade humana que Jesus Cristo nos deixou e ensinou a praticar.