Aprender de quem não esperávamos

Por Padre Jorge Guarda

Numa instituição de crianças e jovens portadores de deficiência, conversava-se num grupo sobre os residentes na casa. Uns diziam que nem todos eram portadores de deficiência, mas um discordou, afirmando que ali todos eram deficientes. Os primeiros apontaram para o monitor, mas o segundo disse: O monitor usa óculos, por isso, também tem deficiência de visão. E todos concordaram que assim era. Às vezes, são os cegos que nos ajudam a ver, os ignorantes que nos ensinam a verdade, os simples que nos dão sabedoria, as crianças que nos revelam a maturidade. 

Trouxe esta história para afirmar que, afinal, todos somos mais próximos e iguais entre nós do que, à primeira vista, pensamos. Podemos assim aprender uns com os outros e serem os menos considerados quem nos abre os olhos e faz ver o que não pensávamos. É verdade: todos podemos aprender de todos, mesmo dos que julgamos incapazes de nos ensinar o que quer que seja. É a conclusão que tiramos da estória acima apresentada. 

Numa época em que se aspira e se privilegia a formação universitária e até há quem faça questão de ser chamado “doutor”, quem não atinge essas metas pode ser considerado inferior, ignorante e menos capaz. Mas não é verdade. Se é importante a aprendizagem escolar e a formação profissional, não é só dessa que se adquirem conhecimentos e sabedoria para orientar a vida. É na experiência da vida e nas relações com os outros que se aprende a viver. Ganha-se conhecimento e sabedoria de vida que se pode partilhar com os nossos próximos, com ou sem formação académica. 

A nossa vida enriquece-se, quando sabemos acolher a partilhar uns com os outros o que vamos aprendendo na experiência do dia a dia. Ninguém é tão pobre que não possa ensinar outros e não há quem seja de tal modo rico a ponto de não ter nada que aprender daqueles com os quais se cruza ou convive. Isto pressupõe estar imbuído de humildade, simplicidade, abertura e generosidade. É por este caminho que se combate a altivez e a soberba e se cresce juntos em humanidade. 

Ninguém se julgue autossuficiente. A relação, conversas, colaboração e convivência com outros traz-nos novas oportunidades de aprendizagem, de abertura de horizontes e de conhecimentos que nos ajudam a agir e a viver melhor. Até mesmo na experiência profissional, podermos recolher dados e perspetivas de quem está fora da nossa área e nos traz mais valias que aumentam a visão, compreensão e competências. 

Os verdadeiros sábios são os que aprendem com tudo e de todos. E estão sempre disponíveis para partilhar com quem tem sede de aprender.