Ourém depois da Tempestade
Por Afonso Lopes
Quando a tempestade devastou o nosso concelho, na madrugada do dia 28 de janeiro, uma nota profunda e sombria ecoou nas nossas vidas e espalhou-se por todo o concelho. Paralisou a confusão e o trânsito do século XXI, o que levou milhares de pessoas a parar, a olhar ao redor e a perceber que nada é garantido. O nosso concelho é profundamente amado por todos os que nele habitam, e um dos maiores abalos alguma vez sentidos em Ourém caiu sobre nós nessa noite. Nunca, na nossa história recente, estivemos tão expostos à devastação provocada por uma catástrofe natural. Ainda assim, os ourienses revelaram um coração que nunca parou e um espírito verdadeiramente destemido.
As ruas ficaram submersas, as casas feridas e inúmeras árvores foram arrancadas pela raiz. Seguiram-se dias e noites sem luz, sem comunicações, sem a normalidade que tantas vezes tomamos por garantida. Durante horas; e, para muitos, durante dias, Ourém viveu a incerteza, o medo e aquele silêncio pesado que só as grandes catástrofes sabem impor.
Mas, é precisamente nesses momentos que um concelho revela aquilo que verdadeiramente é. No meio da devastação, emergiram exemplos que jamais poderão ser esquecidos. A humanidade manifestou-se em gestos simples e extraordinários: vizinhos que acolheram vizinhos, voluntários que surgiram sem serem chamados, mãos estendidas onde antes havia apenas desconhecidos. Foi no caos que vimos o melhor de nós.
Mesmo perante todas as dificuldades, os ourienses não se abstiveram do seu dever democrático. No dia 8 de fevereiro, escolheram, através do voto, o próximo Presidente da República. Num momento de fragilidade, escolheram a democracia, a estabilidade e a continuidade. Demonstrámos também uma impressionante capacidade de regeneração: em pouco tempo, o concelho voltou a tornar-se «habitável». Faltou a luz, mas não faltou engenho; faltaram comunicações, mas não faltou união. Adaptámo-nos, resistimos e avançámos.
Nada disto é novo na nossa História. Estes fenómenos, por mais violentos que sejam, fazem parte da memória coletiva da Humanidade. Recordamos o terramoto de 1755, as cheias devastadoras do início do século XX e as intempéries que, geração após geração, obrigaram comunidades inteiras a recomeçar. Sempre que caímos, levantámo-nos. Ourém não é exceção: Ourém é exemplo!
Hoje, mais do que olhar para aquilo que perdemos, importa reconhecer aquilo que ganhámos: consciência coletiva, união, maturidade e a certeza de que temos força para continuar. O futuro traz desafios e vivemos tempos de incerteza, mas juntos saberemos enfrentá-los com coragem serena e fé inabalável.
Agora é tempo de deixar o passado e virar-nos para o futuro. A resiliência dos ourienses é bem conhecida, tanto nos períodos mais grandiosos como nos mais devastadores da nossa História, escrita em todas as freguesias do concelho. Eu, que cresci e sempre vivi neste amado território, sinto emoção ao invocar, uma vez mais, uma frase que todos estamos habituados a ouvir; e, que hoje faz ainda mais sentido: VIVA A OURÉM!
