Acham mesmo que celebrar o Dia da Mulher já não faz sentido?
Por Cília Seixo
Há muitos que defendem, com uma leveza perigosa, que a igualdade entre homens e mulheres é um facto, que o feminismo está a ir longe demais e até que feminismo é igual a machismo disfarçado. Na verdade, há aqui um equívoco: o feminismo é um movimento que procura a igualdade de direitos e oportunidades entre géneros, enquanto o machismo é um comportamento ou ideologia que defende a superioridade do homem sobre a mulher. Este equívoco que muitos gostam de alimentar, por ignorância ou por interesse, alimenta a desigualdade persistente entre homens e mulheres, bem patente nas estatísticas de 2025 e nas projeções para 2026 e apontam para um cenário bem diferente: além de estarmos longe da igualdade em muitos aspetos, o mundo está a travar a fundo ou a fazer marcha-atrás no que se refere à igualdade de género.
À velocidade atual, a humanidade precisará de 123 anos para atingir a paridade total. Isto significa que nem as nossas filhas, nem as nossas netas viverão num mundo onde nascer mulher não lhes dite o destino.
Esta lentidão não é um acidente, mas o resíduo de um sistema patriarcal milenar. Desde a Grécia Antiga, onde a mulher era uma “eterna menor”, sem direito de cidadania, até ao Direito Romano que cimentou o poder absoluto do Pai / Chefe de Família, Pater Familias, a estrutura social foi desenhada menorizar a mulher e para a excluir da esfera pública. Até há 100 anos, mesmo no moderno mundo ocidental, as leis impediram as mulheres de herdar ou administrar bens, de votar, de publicar livros ou registar qualquer obra de arte ou de ciência em seu próprio nome.
Em Portugal, as mulheres representam atualmente 59,1% do capital humano qualificado; no entanto, apenas 22% das empresas com fins lucrativos são lideradas por mulheres (CEOs), a representação feminina na administração bancária, por exemplo, não passe dos 23% e apenas 33% dos assentos da Assembleia da Républica são ocupados por mulheres. Estes dados, entre muitos mais disponíveis, apenas demonstram que esses 59,1% de capital humano e talento femininos continuam a ser desperdiçado em termos de desenvolvimento económico e social.
E estes números, apesar da legislação, não surgem por acaso. O peso do passado continua a refletir-se na chamada “segunda jornada” de trabalho; globalmente, as mulheres dedicam 2,5 vezes mais horas por dia ao trabalho doméstico e ao cuidado não remunerado com crianças e idosos, do que os homens. Em Portugal, este padrão de baixa participação masculina sobrecarrega as mulheres, e limita a sua disponibilidade para cargos de liderança.
Mais alarmante é o retrocesso ideológico da chamada Geração Z, jovens nascidos entre 1997 e 2012, face às gerações anteriores. Estudos indicam que 60% dos homens jovens desta geração acreditam que a igualdade foi “longe demais”. Alimentados por algoritmos que promovem influencers como Andrew Tate, adquirem uma visão conservadora onde o papel da mulher deve ser de subserviência e não de igualdade. Este retrocesso ideológico manifesta-se na proliferação de políticas reais de subtração de direitos, nomeadamente no que se refere à proteção contra a violência doméstica, como aconteceu este mês na Argentina.
Por tudo isto, enquanto nascer mulher determinar a carreira profissional, o salário, a segurança física e a responsabilidade com o trabalho doméstico e o cuidado devido às gerações mais novas e mais velhas, o Dia da Mulher não será uma celebração, mas um ato de resistência necessário contra um sistema que predomina e um lembrete de que a igualdade legal não garante a igualdade real.
