O legado de Amar Pelos Dois
Por João António
Rui Veloso e Carlos Tê compuseram, a certa altura da sua vida, aquele que viria a ser o hino dos apaixonados portugueses, uma música magnífica que entrou no coração de todos e os fez sabê-la by heart. O nome dado a essa canção, A Paixão, coincidia com a sensação que causava àqueles que a sabiam de cor, mas era comummente conhecida como o Anel de Rubi, aquele objeto marcante da sua composição, o sacrifício do apaixonado para impressionar alguém que, no final de contas, não ouve a mesma canção. Durante anos a fio, desde o seu lançamento em 1990 no icónico álbum Mingos & Os Samurais, ecoou como balada de festas, som obrigatório nos CD’s e cassetes que rebolavam pelo carro, melodia do amor, da melancolia, da tentativa amorosa. Ecoou, acima disso, como uma lição: a de que não se ama alguém que não ouve a mesma canção, e isso, inevitavelmente, entrou no vocabulário dos portugueses como uma expressão sólida, robusta, que não escapa a Veloso e a Tê.
Em 2017, no entanto, subiu ao ringue um novo lutador, que assinalava uma nova expressão e que a empurrava aos ouvidos dos portugueses, traçando uma mensagem mais esperançosa do que aquela do casal que tinha ido ao Rivoli. Uma mensagem de Luísa Sobral, cantada pelo irmão Salvador, que conquistou o público europeu: talvez pela letra e pela melodia, talvez pela novidade da performance. O que é certo é que, além de pontuações recordistas e da inovação global nos espectros do festival televisivo, Amar Pelos Dois resistiu nos portugueses como um novo hino, talvez nova bandeira geracional na música do eterno apaixonado português. E dadas estas circunstâncias, deparei-me, em conversas com alguém mais entendido do que eu, que Amar Pelos Dois, dos irmãos Sobral, será, talvez um dia, tão ou maior do que A Paixão do Veloso e do Tê.
O curioso será perceber nas gerações vindouras, que nasceram pouco antes ou pouco depois dos irmãos Sobral, sorrirem pela sua conquista, se esta música será mais cantada, mais celebrada e mais icónica do que a da dupla do Porto foi e continua a ser para a larga maioria dos portugueses.
