Voltar atrás 

Por João Antunes

Voltar atrás é um exercício que gosto muito de fazer. Seja a escrever, a ler, a andar a pé para ver melhor uma paisagem, a recuar uns passos para dar mais um beijo à minha mãe. Voltar atrás, esse exercício potencial para que o amor prevaleça como uma pequena segurança; recuar como alternativa ao medo de perder; precaução como bote salva-vidas. 

Esta hipótese é estranha, mas faz todo o sentido. Vivemos num mundo que normalizou o avançar como único caminho a seguir: viver nesse fluxo de comparação com outrem como combustível para chegar longe. Avançar depende, pois, de não voltar atrás: não ler mais livros para crianças, não voltar a casa dos pais, não parar para cumprimentar, antes correr para onde é preciso, não recuar numa teima, numa opinião, cegar todas as perspetivas possíveis, com quantas mais luzes e clarões, melhor.  

Todos nos tornámos numa espiral alérgica a dar um passo atrás, mas talvez porque há um receio plantando de forma inconsciente, como se voltar um passo atrás para dar dois à frente não fosse válido. Acho que há um medo muito evidente: ao dar um passo atrás, corremos o risco de não conseguir dar dois à frente, antes dar um e ficar ali bloqueados, a ver os pássaros planarem na praia, as ondas a bater nas rochas. Tal e qual como uma estátua. Há por aí muita gente com medo de ser estátua, mas arriscar-me-ia a dizer que há ainda mais gente com medo de que os outros sejam estátuas. Somos uma espécie de sociedade da expectativa alheia. Um produto de uma estranha espera composta por sacrifícios e saudade, necessários para que os outros que vieram depois não possam dar o tal passo atrás, com o risco de virem a ser estátuas. Acho que mais vale dar esse passo atrás e ter uma outra perspetiva, por vezes, algumas vezes, pode fazer uma diferença das grandes

“Todos nos tornámos numa espiral alérgica a dar um passo atrás, mas talvez porque há um receio plantando de forma inconsciente, como se voltar um passo atrás para dar dois à frente não fosse válido”