O vento passa, as histórias ficam
Editorial por Francisco Pereira
Em 1941, o nosso jornal dava conta de “um fenómeno físico, que causou destruição por todo o concelho”, ocorrido a 15 de fevereiro desse ano, chamando-lhe então de “O Ciclone”. No relato da época lê-se: “O terrível ciclone que assolou o país, derrubando árvores, destelhando casas, provocando inundações e naufrágios, interrompendo comunicações…”. A descrição parece atual e poderia, perfeitamente, ser sobre a depressão Kristin e às tempestades que se lhe seguiram.
Também então “a noite de sábado, 15, foi um horror. O bramido dos elementos, vivo gigantesco e arrepiante…”. “Telhados que voavam, muros que ruíam, árvores centenárias arrancadas como se fossem frágeis ramos”. O “Pinhal do Rei”, escrevia-se então, “mais parece em determinados pontos árida charneca onde tivessem ido embater e repousar os destroços de imensa borrasca, do que a mata opulenta que era orgulho da região e amparo dos pobres.”
Há 85 anos, como agora, os prejuízos foram vastos, os serviços mobilizados, as populações confrontadas com a força indomável da natureza. E, tal como hoje, confiava-se que “o Governo não faltará naturalmente com a assistência de medidas tendentes a atenuar os seus graves efeitos”.
Ficou o retrato da força bruta da natureza. Não ficaram, com igual nitidez, os retratos das fragilidades sociais que certamente se agravaram, num tempo já marcado pela guerra na Europa e, internamente, pela ditadura, escassez e pobreza. A fome e a miséria já faziam parte do quotidiano de muitas famílias e o ciclone, certamente, terá agravado carências.
Hoje, os tempos são outros. A depressão Kristin voltou a destelhar casas e a interromper rotinas, mas, desta vez, revelou também algo que estava escondido, situações de pobreza persistente, habitações sem condições, famílias que já viviam no limiar da pobreza e que agora ficaram ainda mais fragilizadas.
Sabemos agora que aumentaram os casos sinalizados pelos serviços sociais. Sabemos que havia realidades não identificadas e que a pobreza envergonhada continua a existir, facto que não pode permanecer invisível. A tempestade não criou todas estas fragilidades, mas agravou-as e revelou-as.
Em 1941, ficaram as descrições do vento. Em 2026, ficam também os nomes, as histórias e a responsabilidade coletiva de agir. O vento passa, as histórias ficam. Quando o vento amainar, é nossa responsabilidade garantir que estas histórias não voltem a ficar invisíveis.
