Da indignação à solução 

Editorial por Francisco Pereira

Na última edição, escrevi sobre a crise da habitação. Os protestos continuam e, entretanto, o debate desviou-se, em parte, para o equilíbrio entre o direito à manifestação e a necessidade de garantir a ordem pública, bem como para a proporcionalidade do uso da força pelas autoridades. 

A Constituição garante o direito de manifestação, mas este tem de ser conciliado com a proteção da segurança e dos direitos de todos. Há situações em que os excessos são evidentes, de um lado ou do outro, seja pelo uso desproporcional da força pelas autoridades, seja por comportamentos provocatórios ou violentos dos manifestantes. Noutras, porém, devemos ser mais cautelosos antes de tirar conclusões. Nem sempre é fácil avaliar, à distância, a conduta de manifestantes e autoridades e a análise exige factos, não apenas convicções. 

Vivemos num ambiente de grande crispação social, em que parece que a razão só pode estar de um dos lados, se está à esquerda, não pode estar à direita, e vice-versa. Parece que só é possível defender uma posição rejeitando a contrária ou quem a defende. Falta-nos moderação e a capacidade de defender, com convicção, as nossas opiniões sem ofender ou menosprezar quem tem outras perspetivas, assim como admitir que a realidade pode ser mais complexa do que aquilo que percecionamos à primeira vista. 

Na habitação, pelo menos, parece existir um consenso alargado quanto à falta de casas a preços acessíveis. No entanto, parece que perdemos mais tempo a discutir quem exagerou nos protestos ou na atuação policial em vez de debater sobre as respostas e soluções a dar ao problema da habitação. 

E aqui a tarefa é particularmente difícil. A habitação não se resolve de um dia para o outro. Se faltam casas, não há medida que produza resultados imediatos. É necessário construir, reabilitar, mobilizar imóveis devolutos e criar condições para aumentar a oferta, sem esquecer quem precisa de uma resposta urgente. 

Por isso, há que canalizar as energias da indignação para a reflexão e para a procura de soluções. Aos responsáveis políticos cabe apresentar propostas concretas e a quem protesta cabe também, para além de dar voz ao descontentamento, contribuir para que as propostas e as soluções ocupem o centro do debate.