Religião | Redes sociais agravam “tendência punitiva” sobre a pobreza
Maria d’Oliveira Martins alertou, na abertura do 36.º Encontro da Pastoral Social, em Fátima, na quarta-feira, 21 de outubro, para o crescimento de uma “visão punitiva” da pobreza, tendência que, a seu ver, tem sido “exacerbada” pelas redes sociais.
“Esta tendência punitiva está a crescer. Temos uma visão enviesada na vida, achamos que merecemos o lugar que ocupamos na sociedade e o cérebro condiciona a nossa relação com os pobres”, observou a oradora inaugural do 36.º Encontro Nacional de Pastoral Social, promovido pelo secretariado da Igreja Católica em Portugal responsável por este setor.
A oradora, docente da Faculdade de Direito da Universidade Católica Portuguesa, é investigadora nas áreas das Finanças Públicas, Direito Constitucional e Filosofia do Direito, sendo membro da Comissão Nacional Justiça e Paz (CNJP).
“O instinto primitivo reage de forma imediata e manifesta a nossa xenofobia ou aporofobia. Hoje vemos um aumento destes fenómenos porque o discurso de violência tem mais ‘likes’, o raciocínio humano reage a dois minutos de um ‘reel’, é imediato”, assinalou a oradora.
Maria d’Oliveira Martins reconheceu que o Rendimento Social de Inserção (RSI), uma “diretiva da Europa que obriga a um rendimento mínimo”, “não chega a todas as pessoas que necessitam”.
“O RSI não chega a quem necessita porque se relaciona com o rendimento do agregado familiar e não é garantido que chegue a todas as pessoas que precisam. Em Portugal apenas menoriza a pobreza, apesar de um discurso crescente de ódio a pessoas que vivem à conta de 200 euros”, indicou.
A vogal da CNJP alertou que os instrumentos de combate à pobreza são “falíveis”, destacando que os Estados “não devem ser displicentes” na defesa dos Direitos Humanos.
“Hoje sentimos que há menos dinheiro para distribuir e fechamo-nos. A visão punitiva no combate à pobreza prevalece, mas esta só acontece quando tomamos noção deste preconceito e lutamos ativamente contra ele”, afirmou a docente universitária.
Maria d’Oliveira Martins partilhou uma olhar histórico sobre o combate pobreza, lembrando o “dever de trabalhar”, a intervenção do Estado ou a tendência de punição dos mais pobres.
A docente contrapôs à caridade “individual”, que muitas vezes “humilha quem pede” à caridade da comunidade, em particular com a intervenção das autoridades políticas, que permite às pessoas reclamar os seus “direitos”.
A conferencista convidou a olhar a pobreza como uma “negação da dignidade humana”.
O Secretariado Nacional da Pastoral Social promove, entre até hoje, sexta-feira, o seu 36.º encontro anual, dedicado ao tema “Os pobres e o amor que transforma. Ler a Dilexi Te, um ano depois”.
A iniciativa conta com a presença de especialistas nacionais e internacionais, bem como de responsáveis da Pastoral Social em Portugal.
Fonte: Ecclesia


