Poeta Ovídio, momentos de memória
Por João Filipe Oliveira
No meio de tantas ocupações do dia-a-dia, sabe bem por vezes sentarmo-nos um pouco a desfiar memórias e a reconstruir em pensamento momentos do passado. Ora porque encontrámos uma velha caixa de fotografias, ora porque demos com um caixote de pequenas recordações, guardadas mais ou menos sem critério, objetos insignificantes que encerram pedaços de vidas. E é um momento de nostalgia que nos revigora forças para voltar a tudo o que nos mantém ativos.
Aconteceu-me há dias participar num evento que foi oportunidade para um desses reencontros com momentos que foram deixando marcas na minha história pessoal.
O professor Carlos André convidou-me para uma conversa, no auditório do município, a propósito do lançamento do seu mais recente trabalho, uma tradução da obra “Tristia” do poeta latino Ovídio. Colhido pelo inesperado desafio, logo um mar de lembranças me envolveu e não podia nem queria deixar passar a oportunidade de regressar a uma paixão intelectual dos tempos de juventude.
Em primeiro lugar, porque os tempos de Faculdade, a lutar com as dificuldades e mistérios do latim e do grego e a maravilha da descoberta de novos mundos a partir dos bancos da universidade, continuam a lançar um feitiço irreprimível. Todos nós guardamos a nossa juventude como um tesouro precioso das nossas vidas.
Em segundo lugar, porque o lançamento do Pólo de Leiria da Universidade Católica, ali no início dos anos noventa, com a coordenação do professor Carlos André, foi dos projetos mais envolventes em que participei.
Assim, juntando o tema da poesia latina com o prestígio de quem agora me fez o desafio, estava criado o momento ideal para deixar (em parte) o que estava a fazer e mergulhar nesta aventura.
O livro que se apresentou vale bem cada minuto que se lhe dedica. Ovídio era, no tempo do imperador Augusto, um “poeta da moda”. Elegante, galante, famoso, enamorado. Frequentava os eventos mais prestigiosos da cidade mais requintada do Ocidente, Roma, capital de um império “mundial”. Até que o todo-poderoso César Augusto tomou uma decisão implacável de expulsar o poeta para uma terra distante, nos confins inóspitos do Ponto, uma região de fronteira, insegura, fria, inculta, bárbara. A ordem, sem apelo, teve de ser cumprida e o poeta teve de deixar tudo para trás: a família, a segurança, o requinte, o luxo.
A partir de terra distante, sem consolo de nenhuma espécie, faz chegar a Roma um novo tipo de poesia, toda repassada de exílio e tristeza, lamentando a sua sorte e apelando sem cessar ao seu castigador para que reduza a pena. Os “Tristia”, “Cantos de tristeza” na tradução agora editada, é a inauguração de um novo sub-género literário que viria durante séculos a ser imitado por poetas de todas as gerações.
Tal como toda a poesia (a boa poesia), há sempre uma forma de a encaixar na nossa própria experiência e atualizá-la nas nossas vidas. Para mim, “Cantos de tristeza” evoca um certo exílio que me vejo forçado a suportar, pela distância imposta à língua e cultura latinas. A minha formação académica é nas línguas e literaturas clássicas, latim e grego. A minha formação profissional é em primeiro lugar para ensinar esses temas e por aí começou o meu percurso no mundo do trabalho. E assim foi até ao momento em que decisões políticas erradas removeram administrativamente o latim e o grego do currículo das escolas secundárias. Lamento até hoje essa decisão que determinou este meu “exílio”. Outros países mais avançados culturalmente, com outros governos mais sensatos, sempre mantiveram essa área de estudos, que em nada prejudica o progresso. Só um certo provincianismo cultural lusitano parece acreditar que conhecer o passado se torna um travão que nos impede de aceder ao futuro.
Regressar, por breves momentos, ao latim, aos poetas que construíram a nossa cultura, que foram e continuam a ser modelos de pensamento e de valores, é equivalente a um alívio de uma pena injusta que sou obrigado a cumprir.
Ovídio, a partir do Ponto, também acreditou, até ao limite, que o alívio haveria de chegar um dia, mas nunca chegou. Assim possa eu continuar a regressar, mesmo que não seja de forma definitiva, aos momentos que definiram aquilo que agora sou.

