A construção de muros em pedra seca (calcário) | Uma arte que permanece ativa pelas mãos dos seus Mestres!
Por Ana Saraiva
No passado dia 17 de outubro celebrámos o Dia Internacional do Património Cultural, instituído em 2023 pela UNESCO juntamente com os Estados Parte onde, na qualidade de ponto focal nacional à época, tive o privilégio de participar.
Vem a esse propósito a Arte da construção dos muros em pedra seca, cuja etnografia venho desenvolvendo desde 2001 com mestres pedreiros da região do denominado “Maciço Calcário Estremenho”. Nos últimos anos, a convite da Terras de Sicó – Associação de Desenvolvimento, aprofundei a investigação antropológica no território do maciço de Sicó-Alvaiázere cujos resultados deram suporte científico à legitimação desta manifestação como património cultural pelo Estado português através da sua inscrição no Inventário Nacional do Património Cultural Imaterial (Anúncio n.º 131/2026 publicado no Diário da República).
Em linha com uma visão integrada, reticular e sustentável do património, durante o trabalho de campo procurei acompanhar a construção de muros de calcário no maciço de Sicó sem perder de vista a sua presença noutros maciços calcários em Portugal – como o território abrangido pelas Serras de Aire e Candeeiros – e no panorama supranacional, em especial na bacia do mediterrâneo, com especificidades próprias dos habitats onde estas práticas se desenvolvem.
Ouvi e aprendi com 33 construtores conhecedores e experientes neste saber-fazer, todos homens, alegadamente por se tratar de um ofício fisicamente exigente. Uns construtores acumulam o ofício com outras profissões, outros executam-no apenas em situações de autoconstrução ou como apoio familiar e vicinal.
A observação no terreno e o contacto com as populações permitem-nos confirmar que os muros de pedra seca são iconografias visíveis de uma arte ancestral que permanece ativa e continua a desenhar a paisagem cultural do maciço de Sicó (e de outros sistemas cársicos). Para além disso, dão-nos conta do valor material e simbólico que esta arte continua a ter para os seus detentores e para as comunidades representadas.
O processo construtivo envolve vários intervenientes e tem como protagonistas os pedreiros detentores de saberes assimilados pela observação e pela imitação de mestres anciões.
Mas afinal, em que consiste esta técnica executada manualmente por mestres, ou “pedreiros”? Voltaremos a este assunto numa próxima edição.

