Desengane-se, se ainda julga que o seu filho em casa está seguro
Por Cília Seixo
Há uma ideia reconfortante e profundamente enganadora, que muitos pais ainda alimentam: a de que, estando em casa, o filho está seguro. Na verdade, o risco mudou de lugar, está dentro de casa e tornou-se invisível.
Em Portugal, mais de 60% dos jovens passam quatro ou mais horas por dia online e cerca de 38% ultrapassam as cinco horas diárias (ICAD). Nas redes sociais, o cenário é semelhante: 37% dos jovens usam-nas durante pelo menos quatro horas por dia e 15% chegam às seis horas ou mais. É o novo normal.
Só que este tempo não é neutro. O algoritmo que organiza o que os jovens veem não tem qualquer preocupação moral ou ética. O seu objetivo é simples: prender a atenção. E para isso vai afinando o conteúdo, tornando-o mais intenso, mais extremo, mais emocional. Jogos com mecânicas semelhantes a casinos, pornografia acessível demasiado cedo, ou bolhas digitais onde um clique em imagens de tristeza ou revolta rapidamente se transforma numa avalanche de ódio, radicalização ou desprezo.
Quatro em cada dez jovens já apresentam sinais de uso problemático da internet. Há impacto no rendimento escolar, no bem-estar emocional, nas relações familiares e, mais assustador, há uma transformação silenciosa na forma como pensam e sentem
Os efeitos desta utilização desenfreada começam a ser medidos e sentidos. Quatro em cada dez jovens já apresentam sinais de uso problemático da internet. Há impacto no rendimento escolar, no bem-estar emocional, nas relações familiares e, mais assustador, há uma transformação silenciosa na forma como pensam e sentem.
A atenção fragmenta-se. O cérebro habitua-se à recompensa imediata e perde tolerância ao esforço prolongado e ler um livro, estudar, aprofundar uma ideia torna-se penoso. A empatia enfraquece, porque o outro, visto através de um ecrã, deixa de ser plenamente real. E instala-se uma dependência emocional dos “likes”: estes tornam-se uma medida de valor pessoal, com tudo o que isso traz de ansiedade, insegurança e distorção da autoimagem.
Neste contexto, a violência também muda. Em Portugal, casos recentes mostram uma frieza inquietante: o episódio de Vagos, em 2024, onde um adolescente disparou sobre a mãe, ou situações de agressões e violações em grupo entre jovens, filmadas e partilhadas como troféus digitais.
Muitos pais continuam a confundir controlo físico com segurança real. Os filhos não saem sozinhos, mas navegam sozinhos num mundo sem filtros. E esse mundo exige algo que muitas famílias ainda não assumiram: presença ativa, mediação, limites claros na utilização dos smartphones. Um adolescente não tem ainda o “travão” cerebral plenamente desenvolvido; dar-lhe livre acesso a um smartphone é, de facto, entregar-lhe um instrumento que ainda não sabe gerir. Porque a verdade é esta: o perigo já não está na rua, está no quarto, atrás de uma porta fechada, como a serie inglesa Adolescência tão bem demonstrou.
