Uma mulher que encontrou a política na participação cívica 

Não sabia o que era a política. Por isso, quando ainda antes da Revolução dos Cravos decidiu lutar para melhorar as condições de vida que a esperavam na aldeia, fê-lo. Sem medo, foi conquistando o seu espaço e recorda emocionada as dificuldades do antes e as alegrias do depois, trazidas pela liberdade. Deolinda Simões é, como diz a filha, “uma guerreira”, com muita gente em Ourém a admirá-la, alguns nem tanto, mas a merecer o respeito de todos. 

Aurélia Madeira 

Nascida em Ourém, mas criada em Lisboa, onde fez o então Magistério Primário, Deolinda Simões voltou à terra natal pouco depois da sua formação. 

É por cá que a mulher de luta se revela. “Uma grande mulher, de que muito me orgulho”, diz a filha Carla, emocionada. 

Ainda antes de abril de 1974, Deolinda Simões ousou enfrentar o então presidente da Câmara em busca de melhorias nas escolas para onde foi trabalhar, numa intervenção cívica que, à época, ela ainda não sabia ser política, mas que, claramente, já o era. 

Habituada que estava à grande cidade, o contraste com a realidade da aldeia, então ainda sem água canalizada, sem eletricidade e com péssimos acessos, foi um choque. Diz que a impressionava sobretudo não poder tomar o seu banho, como estava habituada, andar de candeias e candeeiros a petróleo à noite, mas também sentia a falta de amigos e colegas que havia deixado em Lisboa e que por cá ainda não tinha tido oportunidade para fazer. Mas, tudo isso não a desmoralizou e cedo partiu para a luta. “Uma guerreira”, diz Carla, sentada ao seu lado, no decorrer da nossa conversa. 

Deolinda conta que existia, quando chegou, uma escola no concelho de Ourém, para onde nenhuma professora queria ir. Era no Casalinho, em Casal dos Bernardos e “era um horror”, recorda. 

“Foi um bocado complicado, mas adaptei-me. Eu adapto-me com facilidade”, afirma a sorrir. Foi assim que acabou por se ir, ela mesmo, oferecer à Direção Escolar, em Santarém, para ocupar aquele lugar que ninguém queria. Conta-nos que eram as instalações de “uma antiga fábrica de resina. Uma casa que tinha uns buracos que eram as janelas, com uns pedaços de tecido pendurado que eram as cortinas. Para entrar lá, no inverno, o acesso fazia-se sobre umas pedras bem grandes, porque aquilo estava numa cova e fazia uma espécie de lago, e nós íamos, de pedra em pedra, para não nos molharmos todos”.  

Artigo completo no Notícias de Ourém de 24 de abril de 2026