Aceitar e defender-se na própria vulnerabilidade 

Por Padre Jorge Guarda

Somos mais propensos a esconder do que a aceitar a vulnerabilidade. Temos dificuldade, normalmente, em admitir as próprias fragilidades nas várias dimensões da vida. Por isso, não nos defendemos atempadamente e podemos ser enganados e atingidos. Tal não acontece tão facilmente a quem tem princípios, valores ou recursos com que se orienta na vida e enfrenta as suas debilidades.  

Somos vulneráveis e as tentações investem sobre nós, arrastando-nos para atitudes e comportamentos errados. Com falinhas mansas e ilusões de bem, aguçam-se os nossos desejos e ambições, que nos induzem a fazer o mal. Quantos não têm sido enganados através de mensagens ou contactos de telemóvel, para ajudarem filhos ou pessoas vítimas de doenças raras ou de situações de carência extrema? Acreditando piamente, tocados emotivamente e sem ponderaram bem na verdadeira origem e termos da mensagem, vão imediatamente depositar o dinheiro pedido. Só depois, pensam no que fizeram, conversam com outros e descobrem que foram enganados.  

O que acontece neste tipo de casos, sucede noutras dimensões da nossa vida. Como defender-se? É preciso, antes de mais, estar prevenido quanto às próprias vulnerabilidades e ter consciência de que, se aconteceu aos outros, também nos pode suceder a nós. Depois, é bom não se deixar iludir pelas aparências, falinhas mansas e aparências. Há que habituar-se a ponderar e discernir antes de fazer o que nos é sugerido. Ao nível espiritual, cultivar a escuta e meditação da Palavra de Deus e uma certa proximidade com o Espírito Santo. Ele ilumina-nos, dá-nos sabedoria, discernimento e lucidez para dizer sim ao bem e não ao mal.  

Na liturgia do passado domingo, a Palavra de Deus conta-nos a história de como o primeiro casal humano foi enganado pela serpente, que representa a astúcia do mal. Deixaram-se cativar pelas palavras ardilosas e pela aparência e cederam à tentação. Sofreram de imediato as consequências: sentiram a perda da própria dignidade e a vergonha de Deus e de si próprios. No evangelho, também Jesus foi sujeito à tentação, mas soube defender-se e não caiu nela. Estava armado com a Palavra de Deus e com ela e o discernimento, resistiu às investidas do inimigo. O evangelho conclui que vieram os anjos e serviram-nos. Ficou mais forte, portanto. 

Com a Quaresma e a sua pedagogia espiritual, somos alertados para reconhecer as tentações e as vulnerabilidades pessoais. Por outro lado, são-nos oferecidos meios de prevenção, cura e fortalecimento do nosso espírito, para sermos capazes de resistir às tentações e evitar o mal. Revisão de vida ou exame de consciência, escuta de Deus, através da sua Palavra, e dos outros com quem convivemos ou encontramos, participação nos sacramentos da Igreja, particularmente na Reconciliação, exercício da oração prolongada, partilha e prática de boas ações com os mais necessitados, são alguns dos meios à nossa disposição. E ainda contarmos uns com os outros, fazendo caminhos juntos. Assim podemos aceitar e defender-nos melhor nas próprias vulnerabilidades. 

Queiramos ser pessoas de bem e capazes de o identificar e escolher sempre, tanto na vida pessoal como familiar e social.