O homem que trabalha e o homem que descansa -Uma reflexão sobre o desprezo dado às artes (III) –
Por Afonso Alves
Vivemos numa época em que parece existir uma necessidade permanente de avaliar os outros. Quem trabalha mais, quem trabalha menos, quem tem sucesso, quem não tem, quem aproveita a vida, quem não aproveita. Nas redes sociais, conhecemos pessoas através de fotografias cuidadosamente escolhidas e, em poucos segundos, construímos opiniões sobre vidas que desconhecemos completamente. O problema é antigo: apenas temos, hoje, ferramentas melhores para o fazer. Foi precisamente por isso que me chamou a atenção uma pintura de John Philip Falter, realizada em 1961. Intitulada «Sunday Gardening», a obra foi escolhida para a capa da The Saturday Evening Post de 1 de julho desse ano. À primeira vista, parece representar uma situação absolutamente banal: dois homens, dois jardins e duas maneiras muito diferentes de passar um domingo.

Imagem retirada de: https://www.artnet.com/artists/john-philip-falter/sunday-gardening-the-saturday-evening-post-cover-uzmdlTZyWGb-VvI1xwNM5w2
De um lado, encontramos um homem ocupado a cuidar meticulosamente do seu jardim. Tudo parece estar no lugar certo. A relva está cuidada, os arbustos aparados e o trabalho parece ser levado com enorme seriedade. Do outro lado, separado apenas por uma vedação, está outro homem, sentado numa cadeira, aparentemente adormecido. O seu jardim encontra-se muito menos cuidado e, à primeira vista, a conclusão parece óbvia: temos de um lado o homem trabalhador e responsável e, do outro, o homem preguiçoso que decidiu passar o domingo a dormir. Mas será mesmo assim?
É aqui, que Falter nos obriga a olhar uma segunda vez. Espalhados pelo jardim do homem que descansa encontram-se brinquedos e objetos que denunciam a existência de crianças. Há uma bicicleta, brinquedos e outros sinais de uma casa vivida. O cão dorme, também. Talvez, aquele homem não seja preguiçoso. Talvez esteja simplesmente cansado. Talvez tenha passado toda a semana a trabalhar, a cuidar dos filhos e a resolver os problemas de uma família e, naquele domingo, tenha finalmente encontrado algumas horas para se sentar. E, de repente, a pintura muda completamente.
Aquilo que parecia ser uma comparação entre trabalho e preguiça transforma-se numa reflexão sobre a facilidade com que julgamos aquilo que vemos. O jardim cuidado deixa de representar necessariamente virtude e o jardim desarrumado deixa de representar necessariamente desleixo. Porque, há histórias que não cabem numa fotografia, há cansaços que não se veem, há batalhas que acontecem dentro de uma casa e que nunca chegam ao jardim.
E, talvez, seja precisamente aqui que uma pintura de 1961 consiga dizer alguma coisa sobre 2026. Hoje, julgamos ainda mais depressa. Vemos alguém publicar fotografias de férias e pensamos que tem uma vida perfeita; vemos alguém trabalhar até tarde e admiramos a sua dedicação; vemos alguém descansar e chamamos-lhe preguiçoso; vemos alguém bem vestido e imaginamos que tem dinheiro; vemos alguém com dificuldades e rapidamente encontramos uma explicação para elas.
As redes sociais agravaram esta tendência. Criámos uma sociedade onde quase tudo pode ser mostrado, mas onde quase nada precisa de ser explicado. Vemos o resultado, mas não vemos o caminho; vemos o jardim, mas não sabemos quem passou a semana inteira a tratar dele.
Talvez seja por isso que «Sunday Gardening» seja muito mais do que uma simples cena doméstica americana. É uma pequena lição sobre aquilo que não conseguimos ver. Porque, afinal, não sabemos o que acontece do outro lado da vedação. E; talvez, devêssemos pensar nisso antes de julgarmos alguém. O homem que hoje parece estar a dormir pode ter sido aquele que ontem não conseguiu dormir. A pessoa que parece estar parada pode ter passado anos inteiros a correr. E, aquele jardim que hoje parece abandonado pode simplesmente pertencer a alguém que, naquele domingo, decidiu que tinha o direito de descansar.
Falter pintou dois homens separados por uma vedação. Talvez, sem saber, tenha pintado também uma das maiores divisões da sociedade: a diferença entre aquilo que vemos e aquilo que realmente sabemos. Porque, é muito fácil julgar um jardim: difícil é conhecer a história de quem nele vive.

