A Língua- Elemento básico de Coesão, Unidade e Identidade

Por Professor Mário Albuquerque

A Língua Portuguesa constitui, pela sua dimensão Universal, um forte elemento de aglutinação no seio dos cerca de 285 milhões de cidadãos que se exprimem através do seu idioma materno, sendo mesmo a 5ª mais falada no espaço planetário. 

   A honrosa proclamação da Conferência Geral da Unesco, atribuindo-lhe o dia 5 de Maio, de cada ano, como DIA MUNDIAL DA LÍNGUA PORTUGUESA, consubstancia algo de muito significativo e prestigiante, ou seja, o justo reconhecimento da sua verdadeira dimensão. 

   Ao abrigo deste novo estatuto, o nosso pequeno País, “uma nesga de terra debruada de mar”, no feliz dizer de Torga, adquiriu mais alargados horizontes, não nos limites do seu acanhado espaço físico e geográfico, mas, decididamente, no contexto universalista da sua vertente histórica, cultural e humana, à imagem da sua ancestral vocação de “…dar novos mundos ao mundo…”, bem expressa, aliás, na fantástica gesta da expansão ultramarina dos séculos XV e XVI. 

  Ao manifestarmos a nossa justa exaltação, extensiva a toda a diáspora, consubstanciada na vasta Comunidade espalhada pelos mais diferentes cantos do Mundo, onde o sentir e alma nacionais estão bem vivos, julga-se imperativo que saibamos assumir, com firmeza, a nossa identidade e inalienáveis responsabilidades. 

  Cumpre-nos, deste modo, preservar a sua integridade e pureza, não me parecendo curial dar cobertura a algumas conhecidas tendências, ditas “modernas”, que parecem proliferar, e que, manifestamente, apenas servem para a descaracterizar a nossa riqueza linguística, em favor de influências importadas, parte das vezes desvirtuando as suas bases científicas, com a menorização das raízes, mais decisivas, que estão na sua génese. 

  Não será este o exemplo, muito longe de consensualizado, vertido precipitadamente, no novo acordo ortográfico?   

 Infelizmente, não raras vezes, somos confrontados com verdadeiros atropelos, quais ruídos grosseiros e ensurdecedores que incomodam os mais exigentes e sensíveis, sendo de sublinhar que tais desmandos acontecem, amiudadamente, a partir dos chamados grandes Órgãos de Comunicação Social.  

  A título de mero, e lamentável, exemplo, atrevo-me a transcrever uma pequena frase que, recentemente, passou num rodapé de uma televisão pública “…graça um sentimento de impunidade…” o que é, no meu ponto de vista, extremamente grave e deveras confrangedor. De facto, substituir “grassa” por “graça” revela total ignorância e representa um brutal atentado à língua de Camões, como vulgarmente lhe chamamos.  

 Despertar para estes e outros reiterados abusos que, perante algum laxismo, e instalada indiferença, acontecem com preocupante frequência, será, no meu ponto de vista, um propósito a ter em linha de conta, no âmbito deste notável registo linguístico, de forma a reverter, decididamente, o caminho, mais perverso, que está a ser trilhado.  

  Importa, de facto, preservar tão distinto património, a acrescentar a tantos outros que, orgulhosamente, ilustram a nossa história e o património coletivo que tantos nos enobrece.   

  É uma tarefa de todos, e para todos, única forma de nos realizarmos, enquanto Povo Universalista, com mérito e orgulho, sem que, com esta postura, pretendamos “espezinhar” quem quer que seja. 

   Obviamente que a necessária intervenção, tão urgente quanto possível, dos poderes públicos deve constituir exemplo para todos, particularmente para as Escolas, Comunicação Social e outras Entidades, parecendo-nos que muito mais poderá ser feito, no intuito de evitar alguma visível degradação, que já é patente, tanto na linguagem escrita como falada. 

     Concluo enfatizando, com veemência, a importância desta efeméride, expressiva de enorme sentimento comunitário, enquanto inestimável referência da nossa grandeza no mundo, da coragem, e do orgulho, que muito nos diferencia, identifica e engrandece. 

 P.S. – Estas são as modestas reflexões que julguei oportuno publicar, na oportunidade desta efeméride, que quase passou despercebida, como se fosse algo de somenos importância. Uma forma de intervir, no livre exercício da minha cidadania, embora corra o risco, sempre possível e legítimo, de não agradar a outras, porventura menos preocupadas, visões do problema, o que me cumpre respeitar democraticamente. Mas é esta a minha opinião, longe de configurar algo de retrógrado e “nacionalista”, com as conotações pejorativas emergentes.