Cuidar da própria hidratação espiritual
Por Padre Jorge Guarda
No passado domingo, intencionalmente, deixei uma garrafa de água no ambão da igreja. Uns dias depois, uma pessoa viu-a, achou estranho aquele objeto ali e perguntou se ninguém a teria esquecido. Expliquei-lhe então que fora intencionalmente colocada naquele lugar, na sequência da liturgia da Palavra de Deus, para lembrar a quem a vê de que, como precisamos de beber água, não apenas para matar a sede que sentimos, mas também para nos hidratar e vivermos saudavelmente, assim precisamos de nos hidratar espiritualmente para que nos sintamos bem e felizes no nosso caminho.
Este sinal foi-me sugerido pela escuta do relato evangélico do encontro e conversa de Jesus com uma mulher samaritana (cf Jo 4, 5-42). Ambos sentem e falam de água e de sede. Jesus pede de beber e a mulher põe reservas, mas o Mestre vai conduzindo a conversa e diz-lhe que se ela conhecesse o dom de Deus, então pedir-lhe-ia a água viva que ele promete e não teria mais sede. Ela pede-lhe dessa água e ele diz-lhe que quem dela beber brota nele uma nascente que jorra até à vida eterna. A mulher fica entusiasmada com as palavras de Jesus e vai à cidade contar a outras pessoas que vêm para ouvir aquele de quem ela dava testemunho. E muitos vieram para encontrar e ouvir Jesus, bebendo da água viva que ele dava a quem escutava as suas palavras.
Se a desidratação coloca a nossa vida em perigo, assim a desidratação espiritual faz-nos estar desprovidos de força interior, sentido de vida, fé e esperança. Pode mesmo fazer-nos perder o interesse e gosto pela vida. Por isso, é importante beber também com frequência a água espiritual. Efetivamente, a água é um dos símbolos do Espírito Santo. Como ela entra no nosso corpo e nos mata a sede, garantindo o bom funcionamento do nosso organismo e revitalizando todo o nosso ser, assim faz o Espírito em nós: dá-nos a vida de Deus e faz-nos viver nele com confiança e alegria.
A hidratação espiritual faz-se através da escuta e meditação da Palavra de Deus, se possível diariamente, a oração pessoal regular, a participação frequente na Eucaristia, a partilha de dons, a busca da reconciliação e da paz nas relações com outras pessoas e a prática das boas obras. Ao mesmo tempo, é preciso saber moderar-se em tantos aspetos e atitudes da vida, evitando o mal e orientando-se na prática do bem. Este modo de viver ajuda-nos a andar na vida com mais harmonia, esperança e confiança.
Não nos deixemos secar interiormente, mas busquemos a bebida que nos dá vida e faz ser felizes em nós próprios e na relação com os outros e com Deus.
