Memória(s)….
Por Isabel Costa
Regressei por uns dias a um local cheio de memórias; recordação de entes queridos, de aventuras, de cheiros, de sabores… Sentada na varanda, com um pôr do sol de verão num dia de inverno, fui refletindo sobre tudo o que envolve a nossa memória. Ela que é feita de muitas janelas, onde cada um de nós tem um número infinito de pessoas, lugares, histórias e acontecimentos que povoam esse espaço.
De forma mais ou menos sentimental e afetiva, criamos desde crianças o nosso “cantinho” das memórias daqueles que amamos, daqueles que passaram pela nossa vida e do que representaram para o nosso crescimento. Lembranças de um colo, de uma carícia, mas também recordações de acontecimentos tristes, enganos e perdas.
Do mesmo modo, temos a memória das coisas. Quem não transporta até aos dias de hoje, um jornal, um livro, um bilhete de cinema, um cartaz, um autocolante, tantos e tantos outros objetos que nos trazem a recordação de algo vivido e que “insistimos” em manter connosco?
Os retratos e registos da família, dos amigos, dos espaços onde vivemos ou que visitámos, de uma flor que acarinhámos ou de um animal de estimação que já não está entre nós, e de muitos outros momentos, alimentam as nossas lembranças, trazendo-as ao presente e ajudando a construir o futuro com referências, sonhos, desafios e conhecimento.
Doces lembranças da passada glória
Doces lembranças da passada glória,
Que me tirou fortuna roubadora,
Deixai-me descansar em paz um’hora,
Que comigo ganhais pouca vitória.
Impressa tenho na alma larga historia
Deste passado bem, que nunca fora;
Ou fora, e não passara: mas já agora
Em mi não pode haver mais que a memoria.
Vivo em lembranças, morro de esquecido
De quem sempre devera ser lembrado,
Se lhe lembrara estado tão contente.
Oh quem tornar pudera a ser nascido!
Soubera-me lograr do bem passado,
Se conhecer soubera o mal presente.
Camões
A memória coletiva – de um povo, de um país, de um território onde nascemos ou que adotámos (e nos adotou) – é algo que tem de ser vivida, comunicada de forma a fortalecer o espírito de pertença, o amor pelo que foi e pelo que queremos continuar a desenvolver.
Que a memória dos acontecimentos não se reduza a isso mesmo, mas que inspire todos a mudar comportamentos, a não dar tudo por adquirido e perceber que muito há a construir para uma vivência comum. A memória é muito mais do que uma visita ao passado. Dá-nos a possibilidade e capacidade de desenvolver, estudar, capacitar, preservar, e reter conhecimento, ajudando na construção de um melhor futuro.
Nota 1: Sugestão de filme – “A memória do cheiro das coisas” realização de António Ferreira
Nota 2: Depois de dias tão difíceis para muitos, é fundamental que a memória dos acontecimentos não se perca para que seja possível o reerguer com aprendizagem, e que, no escuro desta vivência, a solidariedade surja como a memória coletiva a enaltecer.
Nota 3: Pelo terceiro ano consecutivo o nosso concelho irá estar presente na BTL – Better Tourism Lisbon Travel Market, coordenando e promovendo um palco dedicado ao Turismo Religioso, com impacto reconhecido.
É preciso dar continuidade ao desenvolvimento e à projeção do nosso concelho. A todos que o possam fazer, deixo o repto para que visitem, promovendo o tanto de bom que temos, com particular enfoque na fé, cultura e património.
Conheça o Programa completo do Palco do Turismo Religioso no site da BTL.
“Falamos tanto da nossa memória colectiva, mas parece que não aprendemos nada com ela. O problema da memória colectiva é que se já é difícil aprender com a nossa memória (quantas vezes repetimos os mesmos erros), ainda é mais difícil aprender com a memória dos outros (de pouco serve conhecermos os seus erros). Daí que sejamos herdeiros de uma história, mas não tenhamos memória.”
Miguel Poiares Maduro
Diário de Notícias / 2005.10.19
