Bruno Ferraz E As Personagens do Assombro
Por António Lains Galamba
Pesei muito as palavras de que usarei nas linhas que aqui seguem. A amizade que me prende ao Bruno e o trabalho que temos vindo a desenvolver juntos facilmente podem revelar espelho às mesmas e não quero, longe disso, que elas se corrompam e se confundam no narcisismo. Sem embargo, sei-o, a humildade do artista absorverá qualquer pedantismo da minha escrita que possa resvalar para outrem que não a quem me dirijo.
Conheci o Bruno pelas tintas que resolveu, em boa hora, partilhar nas redes sociais. A aproximação a que estas me obrigaram, esmiuçando ao insuportável a minha curiosidade, revelou-me sensibilidade profunda entrincheirada do mundo pela timidez daquele que hoje trato de amigo. Iniciámos um caminho belo, de desafio mútuo. Ainda no início, a nossa cumplicidade, a forma semelhante de olhar e intervir no mundo, já produziu uma obra de que muito me orgulho. Fui, naturalmente, à boleia do seu talento. Ambos catapultados por uma boa história, pela urgência que é não sermos estrangeiros ao coração de ninguém. Nassim, a raposa vermelha terá em breve segunda edição, reforçando a alegria comum que temos um no outro. A exposição das ilustrações que fazem o livro está patente, até dia 12 de Março, em Aljustrel, bem no respirar do Baixo Alentejo. Nesse dia, estreará o espectáculo de marionetas que contará usando doutros talentos a história de Nassim, a raposa vemelha, levado à cena no auditório da biblioteca Luís Amaro, nessa localidade, pela Isabel Bernardes Silva / CEDEMA.
Sábado passado estivemos juntos a apresentar este trabalho (e a inaugurar exposição). O Sul rendeu-se ao talento e o Bruno já sabe que a exposição seguirá, itinerante, até concelho vizinho. Não parará até esgotar a possibilidade do público da planície. Não fiquemos, ourenenses, aguados e injustiçados pela distância. Como fonte farta durante anos impossibilitada pelo excesso de escrúpulos, o Bruno presenteia-nos em concelho vizinho com outra exposição em nada devedora à referida: Personagens do Assombro estará para visita até ao final de Maio na Galeria de Lourdes de Mello e Castro, na sede do Agrupamento de Escolas Templários, em Tomar. Nela, um mergulho aos confins da infância onde pululam as maravilhosas personagens de assombro que, infelizmente, cada vez habitam menos os mais novos – fruto da distracção digital e da quebra dos moldes onde a minha geração alimentou o afecto, os receios, a magia da imaginação. Urge fazer esta viagem, mergulhar às profundezas de um homem bom, conterrâneo que merece a gentileza como resposta à elevação em que promove a nossa terra e as nossas gentes. Principalmente pela dignidade e beleza que acarreta em cada gesto em que nos lega os bichos fantásticos que só o Olimpo saberá justiçar.
