O Dom e inspiração dos Santos
Por Padre Jorge Guarda
Celebramos no próximo domingo, 1 de novembro, o Dia de Todos os Santos, numa festa única. Eles revelam o melhor da humanidade e a maravilha que Deus faz naqueles que acolhem a sua graça e com ela cooperam criativamente. São muitos mais do que constam nas listas da Igreja, no chamado martirológico. Dessa grande “nuvem de testemunhas” fazem parte também aqueles que o Papa Francisco denominou “santos de ao pé da porta”, os muitos anónimos e os que nos foram próximos. Os santos são dom e inspiração para a nossa vida humana e cristã.
Cada santo é sinal e dom da ternura de Deus para a Igreja e a Humanidade. Ele é obra-prima de Deus e pode dizer dele mesmo o que declarou a Virgem Maria: “O Senhor fez em mim maravilhas… Todas as gerações me proclamarão bem-aventurado”. E ainda: “Feliz és tu porque acreditaste no que te foi dito da parte do Senhor”. Na verdade, o santo é graça e obra de Deus, mas é também adesão e cooperação do próprio. Nele brilha a luz de Deus para o mundo.
Não há dois santos iguais, cada um é único. Se quisermos acentuar as diferenças, diremos que os há de todas as cores e feitios. Se, pelo contrário, preferimos sublinhar o que lhes é comum, então vemos neles expressões variadas do imenso amor de Deus pelos homens. Cada um é uma palavra viva de Deus incarnada naquela pessoa e na sua vida concreta. Quem observa Francisco de Assis vê incarnada através dele a fraternidade. Nele se realiza de modo extraordinário a palavra de Jesus: “vós sois todos irmãos, pois tendes um só Pai que está nos céus”. E com Teresa de Calcutá tocamos na incarnação da caridade, em múltiplas obras de amor ao próximo, especialmente aos mais pobres e sofredores. Nos santos Francisco e Jacinta Marto, incarna-se a palavra “Deus escolhe os pequenos para confundir os grandes e os fracos para confundir os fortes”. Algo de semelhante acontece em cada santo com outras tantas palavras de Deus. Nas figuras de António de Lisboa, na Rainha Santa Isabel, em Vicente de Paulo, em Martinho de Tours e em todos os outros santos, o Evangelho torna-se admiravelmente visível e abundantemente frutuoso.
Na vida dos santos, Deus não só se comunica como age, opera, realiza aquilo que diz, segundo nos revela a Escritura Sagrada. Neles, Deus torna-se próximo de nós, manifesta de modo palpável a sua ternura. Os santos são preciosos dons de Deus.
A Palavra de Deus não se lê apenas nos livros bíblicos, mas também na vida dos santos e da Igreja. O Concílio Vaticano II afirma que a Igreja transmite a Palavra de Deus de geração em geração através da “sua doutrina, vida e culto”. A mesma Igreja apreende e aprofunda as palavras divinas pela investigação dos estudiosos e a pregação dos pastores, mas também pela “contemplação e estudo dos crentes que as meditam no seu coração” e pela “íntima inteligência que experimentam das coisas espirituais”. Deste modo, o Povo de Deus “tende continuamente para a plenitude da verdade divina, até que nele se realizem as palavras de Deus” (DV 8). Algumas destas palavras revelam-se e realizam-se de modo luminoso na vida dos santos.
Na oração eucarística (no prefácio dos santos), a Igreja vê nos santos dons de Deus e confessa que pelo seu “testemunho admirável” o Senhor aumenta e fortalece sempre os Seus filhos, dando-nos neles “provas evidentes” do Seu amor. A vida dos santos é exemplo e estímulo para crescermos na vida cristã. Na comunhão com eles sentimo-nos uma família, e a sua intercessão é auxílio para celebrarmos o louvor divino e para que “possamos vencer o bom combate da fé e receber com eles a eterna coroa de glória” que Cristo nos oferece com a sua graça.
A grande variedade dos santos permite-nos encontrar um que nos seja de ajuda pessoal por sentirmos afinidade e nos revermos nele. Aproveitemos a sua luz e ajuda.

