Ganhar do bom  

Por João António

Levantou-se perto das 7 da manhã. Andava desorientado pela sala de casa à procura dos óculos e sentou-se ofegante assim que os agarrou e meteu na cara. Era importante ir trabalhar naquele domingo, tinha de ser, tinha de ganhar do bom. 

Comeu o pequeno-almoço do costume com um olho aberto e outro fechado: umas papas de aveia, um café e uma banana. Agarrou na mala e saiu pela porta da frente com o nó da gravata por dar. Era um homem de negócios, um homem de negócios tinha de ir de gravata, tinha de chegar a horas, tinha de ganhar do bom. 

Lá ia ele, a 90 numa estrada de 50, que estava deserta. Aquilo tinha de ser bom sinal. Para um homem de negócios como ele, a estrada deserta significava que ele estava a ganhar a corrida, que os outros eram demasiado lentos, que não queriam ganhar do bom. 

Estava escuro, mas era outubro, e em outubro o sol é um preguiçoso. Os outros ainda dormiam, e dormir era coisa de quem não queria fazer nada. Ganhar do bom não era para todos, era só para aqueles que vinham trabalhar cedo. Como é que era possível não andar ninguém na rua, perguntava-se. Só havia uma resposta, era porque estava muito à frente de todos, era imparável. 

No rádio, uma voz lenta e profunda avisava os ouvintes de que os relógios deviam ser atrasados uma hora. Atrasados? Os dos outros, talvez. Ele nunca se atrasava. Nunca! Aquelas recomendações deveriam ser para os preguiçosos. Desligou o rádio e pisou o acelerador. O acelerador era o único que o compreendia, o ritmo aumentava sempre que era necessário, o carro voava, tinha de ser, ele e o acelerador, aquela dupla imbatível.  

Perto da empresa, havia uma padaria que tinha a luz acesa àquela hora, e o padeiro, de braços enfarinhados, olhou-o de lado assim que o viu chegar. Finalmente alguém que percebia de negócios, pensou, e buzinou-lhe em sinal de respeito. Tal como ele, o padeiro não tinha mãos a medir.  

Tocou à campainha e o segurança abriu-lhe a porta com uma cara de estranheza e de desconfiança. Aquilo não era possível, como é que o segurança ainda ali estava? Porque é que ainda não chegou ninguém? Era o que o homem de negócios queria saber. O segurança olhava-o. Ainda são 6 e 40 da manhã, senhor, como poderia estar aqui alguém? O homem de negócios não podia acreditar, não podia ser verdade. São 7 e 40 da manhã, senhor segurança, isto já devia estar aberto, o seu relógio está atrasado. Não, senhor, a hora mudou, o seu é que está adiantado.  

Entre a realidade e o relógio que tinha ao pulso, o homem de negócios não hesitou: que a realidade se acertasse. Deu finalmente o nó à gravata, tinha acabado de obter mais uma hora para ganhar do bom.