Os resultados do PISA, a Escola e a Sociedade do Cansaço1
Por Cília Seixo
Sou professora do ensino secundário há cerca de 40 anos. Quase todos os anos corrijo exames nacionais — por vezes, mais do que uma fase — e nunca tive uma perceção tão clara da falta de competências dos alunos ao nível da compreensão, da interpretação de textos e da expressão escrita como a que tive no ano passado. Recebi cerca de 200 itens, provenientes de três escolas não identificadas, e foi, simultaneamente, chocante e assustador esforçar-me por ler e entender respostas absolutamente sem sentido, lógica ou nexo. Não se tratava apenas de falta de conhecimento dos conteúdos da disciplina ou da sua aplicação inadequada às questões: era a incapacidade daqueles alunos, do 11.º ano, de apresentar uma ideia com clareza, congruência e sentido. Por isso, os resultados do PISA, de que tanto se falou na última semana, não foram uma surpresa; foram apenas a constatação de um facto que me tinha deixado perplexa e verdadeiramente triste por me sentir, enquanto professora, parte de um processo que, indesmentivelmente, está a correr mal. Não senti que aqueles alunos fossem os únicos responsáveis pela incapacidade demonstrada; senti que aquele insucesso era também meu, enquanto professora, da escola, das famílias e da própria sociedade.
O insucesso na aquisição de competências ao nível da compreensão, interpretação e expressão escrita e oral resulta da confluência de diversos fatores, bem como da interação entre a escola, as famílias e as dinâmicas sociais contemporâneas. Vivemos num tempo de aceleração constante, focado no cumprimento de programas extensos e na definição de metas quantitativas de sucesso. Isto conduz a processos de ensino-aprendizagem focados na transmissão rápida de conteúdos, em detrimento da demora necessária ao treino da leitura, da escrita, da correção e da reescrita, do debate argumentativo e da produção de textos extensos.
Os textos longos — rotulados de “chatos” por exigirem mais tempo, concentração e foco — têm vindo a ser substituídos por textos curtos, infantilizados, emoldurados com cores e grafismos, e por uma leitura superficial e lúdica, semelhante à que se tornou habitual nas redes sociais: uma leitura fácil de consumir e de digerir, mas geradora de resistência ao esforço exigido pela interpretação de textos mais complexos. Paralelamente, a exposição permanente à informação cria no aluno a (falsa) sensação de conhecimento, fazendo-o acreditar que “sabe”, quando, na verdade, não é capaz de inferir uma ideia a partir de outra, nem de identificar ou apresentar uma síntese com lógica. Transmitir uma ideia com clareza, seja oralmente ou por escrito, exige planeamento, rascunho e correção, exatamente o contrário do imediatismo, do prazer e da dopamina que as redes sociais ajudam a libertar. Assim, temos alunos que julgam saber, mas que são incapazes de transmitir ideias com clareza, com lógica e, pior ainda, de identificar a falta de nexo naquilo que acabaram de formular.
Estou a falar de alunos do secundário porque são esses a minha realidade, mas o problema começa a manifestar-se muito antes disso. O ritmo de vida acelerado das famílias obrigou a escola a horários idênticos, e às vezes superiores, aos de um dia de trabalho, com aulas, atividades, projetos, e toda uma pretensão de mostrar, diversificar e permitir novas experiências. Não há tempos livres, ócio, descanso, calma ou lazer; só cansaço. A Escola, por definição, a instituição responsável pela educação formal, viu-se também incumbida da educação informal que seria responsabilidade das famílias. E nesta necessidade de responder a tudo, a escola está cansada e perdeu de vista o essencial para compreender e fazer face à complexidade do mundo em que vivemos: a literacia.
1’ A Sociedade do Cansaço, do filósofo Byung-Chul Han

