Quando o espelho mente: uma reflexão sobre o desprezo dado às artes (II)
Por Afonso Lopes
Vivemos numa época em que parecer jovem parece ser quase uma obrigação. Temos cremes para cada ruga, tratamentos para cada marca, filtros para cada fotografia e aplicações capazes de transformar completamente um rosto em poucos segundos. Nunca tivemos tantos instrumentos para alterar a nossa aparência e, talvez por isso mesmo, nunca tenhamos tido tanta dificuldade em aceitar aquilo que somos. Olhamos para o espelho à procura da imagem que queremos ver, e não necessariamente daquela que ele nos devolve. Mas, curiosamente, esta obsessão não nasceu connosco. Há mais de duzentos anos, Francisco de Goya já tinha percebido tudo.

(hhttps://pba.lille.fr/Collections/Chefs-d-OEuvre/Peintures-XVI-sup-e-sup-XXI-sup-e-sup-siecles/Les-Vieilles-Le-Temps)
É precisamente por isso que uma pintura como «Las Viejas», também conhecida como «¿Qué tal?», continua a ser tão desconcertante. Pintada entre 1810 e 1812, a obra apresenta duas mulheres idosas, excessivamente adornadas, sentadas diante de um espelho. Uma delas segura um pequeno medalhão, associado à imagem da juventude e da beleza que já passaram, enquanto a outra lhe aproxima um espelho onde podemos ver o rosto envelhecido. No verso desse mesmo espelho, Goya escreveu uma pergunta aparentemente simples: «Qué tal?».
Mas, Goya não se fica pelas duas mulheres. Atrás delas surge uma figura masculina, alada, de cabelos e barba brancos, que segura uma vassoura: é Cronos, o Tempo. E talvez seja aqui que a pintura deixe de ser apenas uma representação de duas mulheres envelhecidas e passe a ser uma das mais duras reflexões sobre a condição humana. O Tempo está ali, atrás delas, pronto para varrer aquilo que resta da sua existência. Não importa quanto ouro exista nas joias, quanto cuidado exista no vestido ou quanto esforço seja feito para conservar uma aparência perdida.
Para quem olha rapidamente, poderá ser apenas uma pintura antiga de duas mulheres. Para quem olha verdadeiramente, é muito mais do que isso. É uma mulher agarrada à imagem de quem foi, enquanto o espelho lhe mostra aquilo em que se tornou: é a juventude transformada em memória, a beleza transformada em nostalgia, a tentativa desesperada de convencer o mundo, e talvez a própria pessoa, de que o tempo não passou. E; é precisamente aqui que Goya se torna assustadoramente atual.
Hoje, o espelho já não precisa de estar pendurado numa parede: está no nosso bolso. Está no telemóvel, nas redes sociais, nas fotografias e nos ecrãs que consultamos diariamente. Já não precisamos de joias ou vestidos para tentar parecer aquilo que fomos: basta um filtro. Podemos apagar rugas, alterar rostos, aumentar olhos, modificar corpos e construir uma versão de nós próprios que talvez nem sequer exista. E; talvez seja esse o maior problema. Não o envelhecimento, mas o medo de envelhecer. Não a passagem do tempo, mas a nossa incapacidade de aceitá-la. Transformámos a juventude num ideal quase absoluto e convencemo-nos de que envelhecer é perder valor. Como se uma pessoa deixasse de ser bonita, interessante ou importante no momento em que surgem as primeiras rugas. Goya parece perguntar-nos: de que vale fugir ao tempo, se ele está sempre atrás de nós?
A mulher da pintura pode tentar esconder a idade. Pode vestir-se como uma jovem, adornar-se e procurar no espelho aquilo que já não encontra no próprio rosto. Mas, Cronos permanece atrás dela.
Talvez, seja por isso que esta pintura continue tão viva mais de dois séculos depois. Porque mudámos de roupa, mudámos de tecnologia e mudámos a forma como nos vemos. Mas, continuamos a ter o mesmo medo: o medo de olhar para o espelho e descobrir que o tempo passou.
E, no entanto, talvez Goya nos deixe uma lição ainda maior: não devemos ter medo do tempo. Devemos ter medo de passar por ele sem verdadeiramente viver; porque podemos enganar o espelho, podemos enganar uma fotografia, podemos enganar os outros. Mas, há alguém que nunca conseguimos enganar: o tempo.

