Festividades de verão, momentos de renovação
Por Ana Saraiva
Vivemos um tempo tendencialmente contínuo pautado por ritmos de vida acelerados com episódios sucessivos que valorizam o presente imediato, a experiência e o consumo individualizados. Distantes de um tempo longo em que os ritmos de vida se regiam pelo calendário agrícola, as aldeias de Ourém são hoje espaços globais digitalmente conectadas com o mundo, com práticas de trabalho e de entretenimento maioritariamente urbanas.
É neste quadro social disruptivo que as festas de verão persistem como limiar do tempo quotidiano. Encerram o ciclo de um ano de trabalho, já não nos campos agrícolas, mas nas fábricas e nos serviços…, e anunciam o começo de um novo que se espera próspero. Estas festividades religiosas de cariz popular são momentos de renovação para os que vivem na aldeia ou na paróquia durante todo o ano. E são-no também para os (e)migrantes que vivem entre dois mundos: o mundo da aldeia natal que continuam a habitar afetivamente, e o mundo que habitam realmente, onde trabalham e organizam as suas vidas.
No fim-de-semana da “Festa” a paisagem das aldeias de Ourém transforma-se num palco festivo que congrega centenas ou milhares de pessoas. Os carros são estacionados na beira da estrada criando um cordão de contorno de obstáculos que se prolonga ao longo de centenas de metros. Chegadas ao adro e à Igreja, as pessoas cumprem a sua devoção, pedem por um novo ano com saúde e prosperidade e contemplam os andores dos Santos e dos bolos. Dirigem-se ao restaurante, pedem e pagam sopas de verde, carneiro guisado e/ou frango assado, e sentam-se em bancos corridos nas extensas mesas que partilham com outras famílias num espírito comensal que define a dieta mediterrânica. Ouvem música e dançam, compram um “bolo da festa”, reencontram familiares e vizinhos pagam rodadas e põem a conversa em dia.
A comissão organizadora e os que “ajudam à festa” integram voluntários da aldeia ou da paróquia, uns mais ativos nas dinâmicas da Igreja ao longo do ano, outros menos assíduos, mas também querem dar uma mãozinha, porque são “da Terra e a tradição não se pode perder”.
A “Festa” assume duas funções nucleares: a função espiritual, que determina a sua realização e ocupa a centralidade no plano do sagrado; e a função social, que promove a renovação individual e comunitária dos vizinhos. Ainda que efémeros e trabalhosos, estes dias de festa são momentos nucleares para a consolidação do tecido social destas aldeias. Entre conversas e rodadas, tensões vicinais acumuladas ao longo do ano são diluídas, os laços entre pares são fortalecidos e são criadas novas alianças.
A “Festa da Aldeia” ganha ainda relevância como ato terapêutico, individual e coletivo, em resposta aos efeitos devastadores da tempestade Kristin visíveis nas casas e nos locais de trabalho dos habitantes, para além do impacto forte e duradouro na paisagem local, já tão desfigurada por sucessivas vagas de incêndios.
O cimento da continuidade da “Festa” está ainda na forte participação dos jovens locais, a partir da negociação entre a “tradição” e a “inovação” que permite contrariar cenários de um fim anunciado por entretenimentos mais urbanos e consentâneos com era do digital onde estes se movem. Jovens da “Terra” e das vizinhanças transformam o adro em palco contemporâneo ao som da música tocada por bandas que fazem parte da sua “cena”. É neste espírito que a “Festa” persiste e se renova, com todos quantos a querem fazer e viver.
Para o ano há mais. Até lá, saúde e sorte!

