Uma taxa para investir no futuro do turismo 

Por João Caldeira Heitor 

A decisão do Município de Ourém de aplicar, em 2027, uma taxa turística de dois euros por dormida poderá gerar entre 700 e 800 mil euros anuais, criando uma nova capacidade de investimento no turismo e no desenvolvimento económico do concelho. 

Fátima é um destino internacional consolidado. Mas isso não significa que possa viver apenas da notoriedade conquistada. Os destinos turísticos enfrentam ciclos, alterações nos mercados emissores, mudanças nos comportamentos dos visitantes, crises económicas e geopolíticas, novas formas de viajar e uma concorrência cada vez mais forte. Aquilo que hoje parece garantido pode deixar de o ser amanhã. 

Mais importante do que discutir a existência da taxa, importa perceber como esta receita pode tornar Fátima e o concelho de Ourém mais competitivos e qualificados, nomeadamente no combate à sazonalidade, que continua a alternar períodos de elevada procura com outros de menor atividade, com consequências negativas para as empresas e o emprego. 

Uma atividade turística mais regular ao longo do ano permite às empresas um melhor planeamento estratégico, contratar com mais estabilidade, qualificar os trabalhadores e oferecer salários mais atrativos. A sustentabilidade do turismo passa também pela capacidade de criar emprego qualificado e rendimento para quem vive no território. 

Neste contexto a nova receita poderá ajudar a relançar um projeto estruturante: o Centro de Eventos, Artes e Conhecimento de Fátima. Os congressos, reuniões, eventos culturais e de conhecimento podem gerar procura fora dos períodos tradicionalmente mais fortes, captar novos públicos e aumentar o consumo nos hotéis, restaurantes, comércio, transportes e restantes serviços. Não sendo a única solução, poderá ser uma forte possibilidade que as novas receitas ajudem a concretizar. 

Importa igualmente investir na qualificação do espaço público, na valorização do património, na promoção, na digitalização do destino, na criação de experiências e na ligação entre Fátima e os restantes recursos turísticos do concelho. 

Ourém tem em Fátima uma porta de entrada extraordinária. Quanto maior for a capacidade de atrair visitantes e, sobretudo, de aumentar a sua permanência, maior será a possibilidade de os levar a descobrir o restante território: o Castelo e a Vila Medieval de Ourém, a cidade de Ourém, o Agroal, as Pegadas de Dinossáurios, o património religioso, a gastronomia, os produtos locais, a natureza e tantos outros recursos… 

Não se trata de retirar visitantes a Fátima para os levar a Ourém. Trata-se precisamente do contrário: aproveitar a enorme capacidade de atração internacional de Fátima para criar mais oportunidades de visita e de consumo em todo o território. 

Há uma diferença importante entre contar visitantes e criar valor turístico. Um destino pode receber milhões de pessoas sem conseguir retirar desse fluxo todo o benefício económico potencial. Quanto mais atrativo for o destino, maior poderá ser a procura. Quanto maior for a permanência, maior tenderá a ser a despesa turística e, consequentemente, o impacto na hotelaria, restauração, comércio, serviços do concelho. 

Cria-se, assim, um círculo virtuoso, como um dia me referiu o Reitor do Santuário de Fátima, Padre Carlos Cabecinhas, numa conversa em torno das viagens da Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima: o turismo gera receita, parte dessa receita é reinvestida no destino, o território torna-se mais qualificado e atrativo e essa maior atratividade gera nova atividade económica. 

Que o processo avance com a anunciada comissão de acompanhamento e de informação pública regular sobre as receitas arrecadadas, os projetos financiados e os resultados alcançados. A transparência ajudará a que não existam dúvidas, que se crie confiança e se transforme um encargo numa verdadeira ferramenta de desenvolvimento turístico. 

A taxa turística não resolverá, por si só, os desafios do turismo em Ourém. Nenhuma taxa o faria. Pode, contudo, disponibilizar recursos adicionais para concretizar projetos que, sem esta fonte de financiamento, provavelmente nunca chegariam a sair do papel.