Sociedade vem do latim 

Por Pedro Almeida

Sociedade vem do latim “societas”, derivada de “socius”, que significa companheiro, aliado, no sentido de associação ou aliança entre indivíduos. No sentido moderno, é um grande grupo de pessoas que, de forma persistente, partilha o mesmo território e partilha interesses comuns. 

No entanto, uma sociedade só o é quando, no seu seio, reconhece, acolhe e respeita a diversidade inerente a cada indivíduo que a compõe. Quando assim não é, uma sociedade fragmenta-se, perde coesão, cria exclusão e marginalização, enfraquece. 

Vivemos tempos estranhos, com um discurso político no qual, infelizmente, cada vez mais se normaliza a mentira, a deturpação dos factos e o discurso de ódio, alicerçado numa comunicação social cada vez mais acrítica e subserviente, numa sociedade cada vez mais insensível, em que valores como a empatia, solidariedade, honestidade, senso de justiça, entre outros, são substituídos pelo individualismo, misoginia, divisionismo, pela marginalização, ou discriminação de quem é, ou pensa de forma diferente. 

Espanta-me a facilidade com que este discurso penetra nas várias camadas da sociedade, valendo-se muitas vezes do recurso à religião e aos símbolos religiosos, para fomentar o ódio e atacar os mais fracos. Espanta-me ainda mais como tal discurso tem eco junto de quem se diz cristão, apesar ser exatamente o oposto ao que os valores cristãos nos ensinam, como bem defenderam e explicaram quer o falecido Papa Francisco, quer o atual Papa Leão XIV.  

Ensinamos aos nossos filhos que mentir é errado, mas pactuamos e legitimamos pelo voto quem faz da mentira arma política. Vemos e ouvimos constantes ataques a comunidades imigrantes que criam riqueza em Portugal, fazendo trabalhos que a maioria dos portugueses já não querem fazer e dos quais necessitamos, fomentando o medo e a desconfiança com objetivos políticos.  

Assistimos a ataques constantes contra minorias, porque são um alvo fácil de estigmatizar e têm pouca capacidade de defesa, criando com isso divisões na sociedade. Assistimos, no discurso político, a uma violência crescente no tom e nas palavras utilizadas, com total desrespeito pela diferença de opinião, pelas regras de convivência e daquilo que deve ser o combate político em democracia. Fala-se em “destruir”, “acabar com”, “eliminar”, “arrasar”, em vez de se falar em “dialogar”, “construir”, “criar”, “envolver” ou “integrar”. 

Um estudo da Universidade de Coimbra concluiu que os episódios de incivilidade, de desrespeito e de ofensas na Assembleia da República, mais do que duplicaram entre 2020 e 2025. O que antes eram situações isoladas, normalmente condenadas pelos atores políticos e repudiadas pela opinião pública (lembro-me de um ministro ter sido demitido por uma piada de mau gosto, outro por ter dirigido gestos pouco graciosos a um deputado da oposição), são hoje regra, com casos de total boçalidade, que transformam uma instituição fundamental à democracia e ao país e onde o respeito por quem elege e por quem é eleito são essenciais, num lamaçal e num circo.  

Quando atores políticos se comportam como arruaceiros, legitima-se na sociedade esse tipo de discurso e de comportamento, potenciado pelas redes sociais, onde se promovem e ampliam mentiras e deturpações, com consequências graves, muitas vezes sustentadas por interesses obscuros que visam criar divisões e conflitos nas sociedades. Umberto Eco afirmou, pouco antes de morrer, que o drama das redes sociais é terem dado voz a uma legião de imbecis, numa era que promoveu o idiota da aldeia a detentor da verdade.  

É caso para perguntar por onde andam os valores que fazem de nós uma sociedade em que valha a pena viver, assente no respeito pelo outro, na empatia, justiça e solidariedade? Ou será que estamos mesmo a caminho de nos tornarmos numa sociedade de imbecis?