Ajudas da Tempestade Kristin | Um Governo tão longe e tão lento 

Por Nuno Batista

Como tinha previsto, no primeiro artigo de opinião, parecia-me óbvio que teria de voltar a este assunto. 

A tempestade Kristin, que atingiu Portugal no dia 28 de janeiro de 2025, causou danos devastadores em parte significativa da região centro, com muito impacto no concelho de Ourém. Casas destruídas, vias de comunicação interrompidas e infraestruturas essenciais seriamente comprometidas foram o resultado imediato dessa catástrofe. O Governo, em sua comunicação inicial, prometeu um processo de ajuda célere, com pagamentos a serem feitos em 15 dias e sem burocracias, mas, passados mais de três meses, a realidade não é nada essa. Só um terço dos pedidos foi pago até agora, e o processo tornou-se imensamente burocrático, arrastando-se sem fim e deixando as populações desamparadas. 

O que era para ser uma ajuda de emergência transformou-se num pesadelo administrativo. O Governo central, ao falhar nas promessas de rapidez e simplicidade, impôs um sistema repleto de entraves burocráticos. O procedimento, que deveria ser ágil e acessível, revelou-se uma verdadeira dor de cabeça para as vítimas. Documentação excessiva, exigências complicadas e prazos intermináveis dificultaram a recuperação das famílias, que, já fragilizadas pela tempestade, agora se veem forçadas a lidar com uma máquina estatal pouco sensível às suas necessidades urgentes. Tudo isto porque esta calamidade não atingiu o centro do poder, não atingiu o “Terreiro do Paço” ou os salões de Cascais, foi lá longe, muito longe! 

A situação agravou-se quando o ministro da Economia, Castro Almeida, em vez de assumir a responsabilidade pelos atrasos teve a desfaçatez de culpar os autarcas pelos problemas no processo de distribuição das ajudas. Uma profunda uma falta de respeito pelas autoridades locais e uma incapacidade do Governo de reconhecer os próprios erros. Os autarcas, que têm estado na linha da frente no apoio às populações, não podem ser responsabilizados por um sistema centralizado que, claramente, falhou na sua execução. Todos sabemos o que se passou em Pedrogão Grande, quem foi “culpado” na praça publica e nos jornais. O tempo dos tribunais não é o tempo dos acontecimentos e daqui a 4 ou 5 anos, vão aparecer certamente casos de aproveitamento e os autarcas serão acusados. Percebo muito bem o seu cuidado.  

Esse tipo de discurso não é apenas uma falácia, mas uma tentativa de mascarar a verdadeira falha do Governo: o abandono das áreas afetadas. A crise gerada pela tempestade Kristin foi mais uma oportunidade perdida para o Governo mostrar um compromisso real com as populações afetadas. 

Enquanto as áreas mais afetadas pela tempestade continuam à espera, as promessas de um processo sem burocracia parecem cada vez mais distantes. O Governo, ao invés de reconhecer a sua falha, em vez de executar, apenas empurra o problema para os autarcas, sem se importar com as dificuldades reais que os cidadãos estão a enfrentar. As populações afetadas pela tempestade não merecem ser tratadas como números, mas sim como cidadãos com direitos que precisam ser respeitados e atendidos com urgência. 

É hora de o Governo reconhecer que o país não pode ser tratado como um todo homogéneo. A tempestade Kristin expôs mais uma vez as fragilidades do sistema de apoio a quem realmente precisa onde a ajuda tarda a chegar. Os cidadãos dessas áreas não podem continuar a ser esquecidos, e é fundamental que o Governo assuma suas responsabilidades, devolva a confiança ao sistema e, acima de tudo, cumpra as promessas feitas. O processo de ajuda precisa ser simplificado, desburocratizado e acelerado, pois o sofrimento das pessoas não pode ser prolongado ainda mais por falhas do poder central.