Carta ao Francisco após visita à ex-prisão de Peniche
Por António Lains Galamba
Meu querido camarada, flor da ternura:

Morreste faz um par de anos. Leste-me algumas vezes. Quis sempre que soubesses da minha admiração. Agora escrevo-te para os meus filhos, para os filhos dos homens que te devem – e a outros como tu – a dignidade muito grande de poder estimar a democracia.
Deste-me ao Partido na tua letra muito certinha, de quem a aprendeu nas ganas de se poder armar contra a repressão. Lembro-me desse dia. Tinha terminado a leitura do Caminho das Aves do José Casanova (outro amigo que sonhou outra pátria e que, por isso, conheceu a mesmas grades), entrei em euforia, caí-te nos braços. Inaugurámos a palavra amigo, iniciámos a cumplicidade que me permitiu, sempre, beijar-te a face durante os abraços mais ternos que o Alentejo conheceu.
Depois, vastas vezes, o: senta-te aí, camarada. Sentia o meu privilégio. Ia falar a fonte do sonho, o chão da dignidade. E falavas, ou falava em teus lábios a humildade. Cumprias a obrigação para que nascesse o nosso livro. Modestamente, como se nada fosse – porque nada era para o teu coração incapaz da vaidade – contavas da dignidade. E da coragem.
Nunca de ti. Ou de ti sem os outros, sempre maiores, mais capazes, mais sofridos. Fazias-te dispensável, enquanto letra a letra, exemplo a exemplo, desvendavas ao meu espanto o sofrimento dos mineiros, dos trabalhadores agrícolas, do operariado, às mãos do fascismo que proibia, perseguia, prendia, espancava, torturava, assassinava.
Liquefazias-me quando me contavas das prisões e dos espancamentos. Dos filhos em casa, chorando a fome. Dos homens humilhados por roubarem dois figuinhos para a miséria ser menos na mesma dimensão. Dois figos. A porra de dois figos!
Sei hoje das greves, da cera, e do Homem da Samarra – arma do colectivo para os fura greves. E sei bem o caminho para tua casa, onde já não hás.
Não sei como te puderam bater tanto, cabrões!
Quero que saibas que não esqueço a tua prisão. Vários milhares de panfletos de natureza subversiva escreviam os esbirros no papel que nunca assinaste! Que orgulho, meu terno camarada!
Hoje, ao entrar no Forte de Peniche para dizer aos meus filhos da ganga em que os gostava vestidos, em mais de dois mil nomes os meus olhos encontraram logo o teu. Olhavas-me cheio de ternura, como o menino que não pudeste ser, porque cedo te impossibilitaram a infância as misérias dos teus irmãos.
Fascismo nunca mais!
