Os conflitos no mundo, a tempestade Kristin e as feridas a sarar nos “Patrimónios Comuns”
Por Ana Saraiva
No dia 18 de abril (sábado) celebra-se o Dia Internacional dos Monumentos e Sítios do ICOMOS (DIMS) com iniciativas em várias partes do mundo. Para 2026 foi eleito o tema “Património Vivo: Resposta de Emergência em contextos de Conflitos e Desastres”. Foi uma escolha oportuna perante os impactos crescentes e recorrentes das alterações climáticas e dos conflitos regionais e mundiais provocados por condutas agonísticas, hegemónicas e alienadas de alguns, com danos para a natureza e para a humanidade.
Trazendo esta efeméride para a escala do local, o tema escolhido é oportuno para refletirmos sobre o lastro de destruição que a tempestade de 28 de janeiro deixou no património ambiental e cultural dos territórios afetados. Refiram-se como exemplos os castelos (e.g. Leiria, Ourém…), património da UNESCO (e.g. Convento de Cristo em Tomar, Mosteiro da Batalha…), espaços museológicos (e.g. Casa-Museu Afonso Lopes Vieira, na Marinha Grande), em espaços de culto e de cultura (e.g. Santuário de N.ª Sr.ª da Encarnação em Leiria, Igreja matriz de Urqueira em Ourém), na arquitetura vernacular (fontes, antigas casas agrícolas, muros de pedra solta…) no património ambiental e paisagístico (árvores centenárias, jardins com história e canteiros legados pelos nossos antepassados…).
As feridas destes «patrimónios comuns» ficam gravadas na história dos territórios afetados e na memória coletiva das suas populações. Com origem no latim, a palavra comum remete-nos para o que “pertence a todos”. Leia-se aqui «património comum» como aquilo que é partilhado pelas comunidades que os habitam.
Atendamos com urgência às recuperações prioritárias dos «tetos» das casas que acolhem, protegem e nos conferem dignidade como pessoas e nos agregam como «famílias». Atendamos à reativação das empresas e estruturas em prol da viabilidade social destes territórios empreendedores. E não deixemos de acudir aos nossos «patrimónios comuns» enquanto repositórios de memória e ativadores de futuro das comunidades que os habitam.
As iniciativas locais conectam-se e são influenciadas por orientações (supra)nacionais e pelo devir do mundo global. É neste contexto que as políticas culturais europeias têm vindo a atribuir ao património cultural um papel essencial para alcançarmos mais coesão social, maior participação cívica e melhor desenvolvimento sustentável. A União Europeia reconhece o património cultural como um «bem comum» e incentiva abordagens participativas que envolvem cidadãos e stakeholders nos processos de decisão. Conscientes deste mundo em rede onde nos movemos, esperamos que o dia 18 de abril seja mais um pretexto para, em conjunto (instituições e cidadãos), participarmos na dinamização de uma espécie de «hospital de campanha» vocacionado para tratar as feridas mais prementes dos «patrimónios comuns» que a tempestade Kristin dilacerou.

