Viagem pelo Complexo Monumental de Ourém
Por Afonso Lopes
Ourém não começa nas ruas que hoje percorremos, nem na Câmara Municipal, nem tão pouco no Jardim de Le Plessis-Trévise. Começa lá em cima: no alto da colina. Chamamos-lhe «castelo» por hábito (talvez por simplificação), mas o que ali está é mais do que uma fortificação: é a concretização de algo que, até então, ninguém tinha conseguido. Foi com este sonho tornado realidade que D. Afonso, 4.º Conde de Ourém alcançou algo inédito: transformar a nossa cidade numa das mais importantes da sua época. A realidade é que com a sua campanha de obras, iniciou-se uma nova vida para o castelo, dando-lhe uma dimensão que o tornaria, mais tarde, imortal.
Subir ao Castelo de Ourém e à respetiva vila medieval parece, à primeira vista, a melhor opção para um momento de lazer: uma caminhada tranquila, uma vista extraordinária, algumas fotografias (para relembrar o momento). Mas, basta abrandar, olhar bem para a nossa «máquina de guerra»; para perceber que aquele lugar exige um carinho especial de todos nós. Lá, no alto vemos uma fortificação pensada para proteger o território em caso de invasão. Nunca chegou verdadeiramente a cumprir esse destino militar; e, ainda assim, revela muito sobre aquilo que fomos. Sobreviveu a terramotos, tempestades e ao desgaste dos séculos. E porquê? Porque foi concebido por um homem singular, com uma visão extraordinariamente fora do comum.

O nosso príncipe renascentista: D. Afonso, 4.º Conde de Ourém percorreu a Europa e peregrinou à Terra Santa num tempo em que quase ninguém o fazia. Trouxe consigo influências culturais e arquitetónicas que marcaram profundamente o que aqui mandou erguer. Mais, do que um nobre, foi um homem culto, ligado à política, às artes e à literatura: algo raríssimo no Portugal quatrocentista. Como afirmou o historiador de arte Nuno Senos: «Há muitos castelos; coisas destas não há mais. (…) O que aqui está é mais do que um castelo».
D. Afonso requalificou a antiga fortificação medieval, integrou-a num novo conjunto arquitetónico e mandou construir o seu paço. Avançou duas torres que deram ao complexo uma afirmação inédita em Portugal. Há quem identifique aqui influências italianas, trazidas pelas suas viagens, num raro exemplo de circulação de ideias arquitetónicas no século XV. Mas, o que hoje vemos não foi sempre assim. Ao longo dos séculos o complexo sofreu de abandono e transformações. Para o imaginar como o Conde o via, temos de pensar no paço caiado e rebocado, ricamente decorado com tapeçarias, vivo e habitado.
O castelo é a nossa «jóia da coroa»; mas, será que sabemos o que ele verdadeiramente significa? Importa lembrar que muitos dos nossos castelos chegaram ao século XX em ruínas, até às campanhas de restauro promovidas durante o Estado Novo, sob António de Oliveira Salazar, através da Direção-Geral dos Edifícios e Monumentos Nacionais. Restauraram-se as pedras; mas, demasiadas vezes, esquecemos o seu significado.
