Quando o Alzheimer entra em casa, a doença é de todos
Há um momento em que a memória começa a falhar, mas a vida continua. Os nomes desaparecem, as rotinas confundem-se e as perguntas repetem-se. Para quem tem Alzheimer, o mundo torna-se menos previsível. Para quem cuida, começa um novo desafio. Muitas vezes, uma nova forma de amar. No “Dia Mundial da Pessoa com Doença de Alzheimer”, assinalado a 21 de Setembro, o Notícias de Ourém foi conhecer essa realidade no Centro de Dia “Lembra-te de Mim”, da Santa Casa da Misericórdia de Fátima-Ourém, dedicado ao acompanhamento de pessoas com Alzheimer e ao apoio às famílias. Em Portugal, estima-se que cerca de 240 mil pessoas vivam com demência, com impacto direto em mais de 650 mil familiares e cuidadores.
Carla Paixão
“É deixar de viver ainda em vida”. A frase de Maria Helena condensa duas décadas de convivência com a doença de Alzheimer. A mãe tinha 68 anos quando recebeu o diagnóstico. Hoje tem 95, está acamada e já quase não reconhece a filha. Pelo caminho ficaram anos de cuidados, mudanças de rotinas, decisões difíceis, internamentos, desgaste familiar e aquilo a que Maria Helena chama “muitos lutos”.
“Ver um familiar perder as faculdades e deixar de reconhecer as pessoas é muito confuso e muito difícil. Aquela já não era a mãe que eu tinha”, conta ao Notícias de Ourém.
Durante dez anos, Maria Helena e o pai conseguiram manter a mãe em casa. Ela trabalhava, por isso, o pai, já reformado, permanecia mais tempo com a mulher. Mas houve um momento em que a situação deixou de ser possível de controlar. A mãe “mexia em tudo e havia o receio de que ligasse o gás ou provocasse um acidente”. Continuava a querer fazer as tarefas de casa e não aceitava facilmente ajuda.
Ao almoço, por exemplo, insistia em cozinhar. “Quando já não era capaz de coordenar as coisas, cozia as raízes dos nabos e deitava as folhas das nabiças para as galinhas. Fazia estas coisas, mas achava que estava tudo bem”, recorda a filha.
O diagnóstico tinha chegado anos antes. Começou então um tratamento que, recorda Maria Helena, era “caríssimo” e que conseguiu travar a progressão da doença durante algum tempo. Mais tarde, porém, a situação agravou-se.
A família encontrou uma resposta de apoio no Centro de Dia da Lagoa do Furadouro, onde a mãe passou a permanecer durante o dia. Ficou ali cinco anos.
Maria Helena reconhece que a decisão de retirar uma pessoa de casa “não é fácil”, mas considera que, quando surgem episódios de desorientação ou situações de risco, o recurso a uma estrutura especializada “pode ser decisivo”.
“Eu já aconselhei muita gente a fazê-lo. Quando começam a perder-se e a criar cenários de confusão, é importante encontrar um sítio onde possam ficar, pelo menos durante o dia. Assim, estão acompanhados e mais seguros”, sugere.
A experiência ensinou-lhe também que a rotina é uma espécie de âncora. “Nos doentes de Alzheimer, não devemos andar sempre a mudá-los de sítio. Devem ter, mais ou menos, as suas rotinas. Isso ajuda a controlar situações de ansiedade e confusão.”
A doença, explica Maria Helena, pode desorganizar a perceção do tempo e do espaço. A sua mãe, por exemplo, “chegou a levantar-se às quatro da manhã, convencida de que estava na hora de apanhar a carrinha para o Centro de Dia”.
Entretanto, quatro anos depois de entrar no Centro, uma queda provocou-lhe uma fratura do colo do fémur, agravada por uma prótese do joelho já danificada. Seguiram-se cerca de três meses de internamento. Quando regressou a casa, “estava mais debilitada, já não conseguia andar e a doença tinha progredido bastante.”
Foi então necessário encontrar um Lar. A senhora foi a 15.ª utente a entrar na Santa Casa da Misericórdia de Fátima-Ourém e, segundo Maria Helena, “é hoje a única daquele grupo que continua viva”.
Reportagem completa no Notícias de Ourém de 25 de setembro de 2026

