Feira de S.Bartolomeu em Caxarias | Memórias de uma feira que não volta
Caxarias voltou a acolher, nos dias 29 e 30 de agosto, a tradicional Feira de S.Bartolomeu, também conhecida como Feira das Panelas. Uma feira que celebrava a olaria e o artesanato, hoje mostra uma realidade muito diferente.
Eva Gomes
A Feira de S.Bartolomeu, que decorre no último fim de semana do mês de agosto, reúne vendedores e artesãos da região de Ourém. Com destaque na olaria, devido à sua tradição de “Feira das Panelas”, visitantes das localidades circundantes rumam até ao Largo da Feira para comprar panelas, artesanato, e experimentar os vários comes e bebes disponíveis no recinto.
Reza a história que a Feira de S.Bartolomeu data a 1380, quando Vasco Domingues se dirige ao Conde de Ourém, João Afonso, para reclamar não lhe ter sido dada a permissão de cobrar portagem sobre vinho na Feira, que já se celebrava no dia de S.Bartolomeu, 24 de agosto, na Abadia de Nossa Senhora dos Tamarães.
Os registos históricos estendem-se pelos séculos seguintes, tendo a cerca altura, no século XIX, passado a ser realizada nos terrenos baldios junto à Capela de Santo António. No entanto, não existe uma explicação unânime para a celebração da feira em honra de S.Bartolomeu, até porque este nem é o santo padroeiro da vila, nem era o santo regente da ordem religiosa que ali existiu.
A Feira de S.Bartolomeu, contudo, continua a ser realizada, ano após ano, em honra de um passado histórico que muitos desconhecem. Para as gerações mais antigas é ainda um momento relevante do ano, sendo recordado com carinho.
A certa altura neste percurso longo, a Feira passou a decorrer junto ao edifício da ACITI- Associação para a Infância e Terceira Idade, onde ainda hoje ocupa lugar. Apesar de já não ser celebrada no dia do santo que lhe dá nome, é celebrada no fim de semana que o sucede.
Ao longo dos anos, a Feira de S.Bartolomeu foi mudando, perdendo a sua vertente de “Feira das Panelas”, dando lugar a outros tipos de produtos e a um outro ambiente, muito festivo e de convívio.
O Notícias de Ourém foi até Caxarias para recordar os tempos idos da Feira de S.Bartolomeu, na voz de Teresa Frias, uma habitante da vila que se recorda como se fosse ontem, de um tempo que já não volta.
Uma Feira rural
Teresa Frias vive em Caxarias, apesar de ser natural de Tomar. A sua família, no entanto, residia em Caxarias, e lembra-se de visitar os seus avós aos fins de semana.
Atualmente, a sua saúde não lhe permite sair de casa com muita frequência. Teresa lamenta não poder visitar a Feira de S.Bartolomeu como antigamente o fazia.
“Lembro-me de ser pequena e estar sempre muito entusiasmada para ir à feira”, começa por contar Teresa. “Era sempre uma festa”, explica.
A entrevistada mostra uma fotografia já antiga, onde se pode ver Teresa muito jovem, a pousar com a mão na cintura para mostrar o novo relógio. “Esse relógio foi comprado na Feira de S.Bartolomeu”, aponta.
Comenta que este ano não viu qualquer publicidade para a festa, e que até estranhou. “Só vi há dias nas redes sociais”, diz Teresa. Acrescenta que em outros anos “costumava ter uma entrada luminosa, que chamava bastante à atenção”.
“A Feira hoje é diferente, é praticamente um mercado anual”, sendo que ao contrário de no passado, a azáfama festiva mudou.
“Antigamente era muito diferente, tinha os artesãos, que faziam cestas de vime, os oleiros, como cântaros e assim, as panelas feitas de alumínio…” enumera Teresa.
Teresa descreve a Feira de S.Bartolomeu como uma feira rural, com produtos agrícolas, em que os habitantes das localidades à volta iam vender o excedente de fruta e vegetais que tinham. Para além disso, era também vendido materiais para o campo como alfaias, e até algum gado.
Recorda que na sua juventude, o seu pai costumava ir à Feira das Panelas para comprar cerâmicas como almudes e cântaros, porque em casa não tinham água canalizada. “Vivíamos numa casa de renda que não tinha canalização, então tínhamos de ir buscar a água com esses recipientes de cerâmica. Por isso é que comprávamos sempre algo na Feira, para ir repondo ao longo do ano”, explica.
“Os meus pais compravam os produtos de cerâmica de um oleiro da Asseiceira, que vinha cá todos os anos vender”, comenta. Na sua visão, atualmente a Feira das Panelas já não explora tanto a vertente da olaria. “Com o tempo foram diminuindo o número de oleiros e artesão, creio que em grande parte devido à emigração dos mesmo para outros países”, teoriza Teresa.
“Para além de ser uma feira mais rural, era também o momento de despedida dos emigrantes, que iam embora dias depois da feira”, conta a entrevistada. Existia sempre muita gente no recinto, a conviver e festejar o fim do verão e do bom tempo.
Teresa recorda passar horas na fila da banca das farturas, em que “a senhora a atender já estava mais do que exausta de fritar tanta coisa”. “Os meus pais davam-me sempre qualquer coisita, nem que fosse um saquinho com farturas”, aponta, apesar de existirem dificuldades económicas na altura.
Há cerca de 25 anos Teresa mudou-se para Caxarias. Conta que nos primeiros anos não costumava ir à Feira, mas consoante o seu filho mais novo foi crescendo, mais viu a necessidade do levar a esta celebração. “Lembro-me perfeitamente do meu filho ser pequeno e irmos às bancas da roupa, ver fatos de treino e ele não parar quieto”, comenta, entre risos.
“Já não era como no tempo da minha juventude. A magia parecia que já tinha desaparecido, havia menos artesãos e era mais voltada para outro tipo de comércio”, referindo que se assemelha a um mercado comum.
Teresa lamenta a mudança dos tempos, salientando a importância que estas memórias representam para si. “Ainda tenho peças de cerâmica que foram compradas na Feira das Panelas e recuso-me a deitar fora”, conta.
“São coisas que vão ficando e que nos custa deitar fora”, sendo a representação de uma Feira que há muito mudou.

