Torres Novas | Associação de Casais da Igreja reabre após obras e legalização do edifício 

A Associação Recreativa e Cultural de Casais da Igreja (ARCCI), Torres Novas, reabriu as portas no passado dia 2 de maio, após três anos encerrada, enquanto decorria o processo de legalização do edifício. Intervenção que implicou um investimento na ordem dos 100 mil euros, parcialmente financiado com empréstimos concedidos por vários sócios da coletividade. 

CARLA PAIXÃO 

Fundada em 1979 pelos habitantes da aldeia, a ARCCI procura agora reassumir o papel de espaço central de convívio, cultura e desporto em Casais da Igreja, numa nova etapa marcada pela recuperação financeira e pelo objetivo de “devolver vida à comunidade”, como sublinha Rui Seguro, atual presidente da direção, em entrevista ao Notícias de Ourém.  

“Esta casa foi construída em 1979. Foram as pessoas da terra que meteram mãos à obra para criar um espaço que servisse a aldeia”, recorda Rui Seguro, contando que, ao longo de várias décadas, a associação funcionou como “bar, sala de eventos, ponto de encontro e local de convívio”, assumindo-se como um espaço de forte ligação à população. 

O dirigente destaca sobretudo a relevância que a coletividade teve no futebol de salão: “O ringue exterior que temos ali chegou a ter uma dinâmica enorme. Vinham equipas de todo o lado, havia torneios, havia muita gente aqui reunida”. Para além da vertente desportiva, a associação era também palco de “bailaricos, festas de arraial e outras iniciativas típicas das aldeias”. 

O encerramento surgiu em 2023, após uma inspeção da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil (ANEPC). Embora não tenha existido uma ordem formal para fechar portas, Rui Seguro explica que houve um “aconselhamento muito claro” nesse sentido devido à inexistência de Licença de Utilização. “Disseram que, se acontecesse aqui alguma tragédia, a responsabilidade seria de quem estivesse à frente da associação naquele momento”, refere. 

Segundo o presidente, a situação arrastava-se há décadas: “Esta estrutura já existia há muitos anos. Houve construção, houve alterações, parece que até existiu projeto para uma parte mais recente do edifício, mas a verdade é que nunca chegou a existir Licença de Utilização”.  

Assim, as portas da ARCCI fecharam-se em 2023 para regularizar a situação. O processo de legalização obrigou a associação a adaptar o edifício às atuais exigências, o que implicou obras profundas. “Gastámos aqui perto de 100 mil euros. Foi dinheiro que existia e dinheiro que não existia”, admite Rui Seguro, esclarecendo que grande parte do investimento, destinou-se a cumprir normas legais e de segurança.  

Com as obras concluídas, a associação deparou-se ainda com um novo contratempo. A tempestade Kristin, que devastou a região na madrugada de 28 de janeiro, arrancou o telhado recentemente instalado, agravando significativamente os custos da intervenção. 

“Temos de conseguir pagar aquilo que devemos” 

Atualmente, a ARCCI enfrenta uma dívida de cerca de 13 mil euros, resultante de empréstimos feitos por sócios para permitir a conclusão das obras. “A nossa prioridade é trabalhar. Não há outra hipótese. Temos de fazer atividades, trazer pessoas à casa e criar movimento para conseguirmos pagar aquilo que devemos”, sublinha o dirigente. 

A nova direção quer agora devolver dinamismo à associação e reforçar o seu papel social na freguesia, que conta com perto de 3000 habitantes. Rui Seguro considera que a coletividade é essencial numa localidade com poucas alternativas de convívio. “Temos um café, mas quando esse café fecha, a terra fica parada. As pessoas ficam em casa porque não têm outro local onde se reunir”, afirma. 

“Pé de Dança” com Xarepa Band e “Festa de Verão” na ARCCI 

Para além do convívio diário, a direção pretende recuperar iniciativas antigas e dinamizar novas atividades. Atualmente, já decorrem aulas de Pilates na sede da associação. O Zumba será a próxima aposta e estão previstas outras ações de carácter cultural e recreativo.  

Entre as iniciativas agendadas para os próximos meses destaca-se uma noite dançante promovida pela Câmara Municipal de Torres Novas (CMTN), marcada para 23 de maio, com animação musical de Xarepa Band. Está igualmente previsto o regresso da tradicional Festa de Verão, que não se realiza há mais de uma década e deverá integrar o calendário da associação nos dias 11 e 12 de julho. 

Reativar as atividades desportivas na coletividade é também uma ambição da nova direção da ARCCI. “Queremos voltar a apostar no futebol de salão, porque faz parte da identidade desta casa”, afirma Rui Seguro, adiantando que existem planos para organizar torneios masculinos, femininos e de camadas jovens. 

As expetativas são elevadas e Rui Seguro justifica o entusiasmo com a forte adesão registada no dia da reabertura da associação, um regresso recebido com grande entusiasmo pela população local e marcado pela expressiva participação da comunidade. “As pessoas estavam felizes por voltar a ver isto aberto. Tivemos centenas de pessoas aqui no espaço exterior e, por momentos, parecia que tínhamos regressado trinta anos para trás”, conta o presidente. 

Entretanto, a coletividade já organizou vários eventos, entre eles um encontro de antigos alunos da escola primária da aldeia, que reuniu participantes vindos de vários pontos do país e até emigrantes residentes em França. Seguiu-se uma noite temática dedicada à música das décadas de 70, 80 e 90, que juntou mais de 200 pessoas.  

Direção quer abrir o bar da coletividade todos os dias 

A nova direção destaca-se pela dimensão e pela diversidade dos seus elementos. Rui Seguro explica que, pela primeira vez, foi possível reunir 32 pessoas nos corpos sociais da associação. Inicialmente estavam previstas duas listas candidatas, mas acabaram por unir esforços. “Achei que não fazia sentido dividir a terra e sugeri que nos juntássemos”, refere. 

O atual presidente admite que não contava assumir o cargo. “Na minha cabeça vinha apenas para vogal. Mas numa reunião apontaram todos para mim e eu percebi que tinha de aceitar”, conta. Apesar das dificuldades, garante existir “muito entusiasmo” dentro da equipa diretiva. 

A associação está ainda a estudar formas de abrir o bar com maior regularidade, incluindo a possibilidade de entregar a exploração do espaço a terceiros. “O importante é garantir que a casa tenha vida durante a semana e não apenas em dias pontuais”, afirma. 

Para Rui Seguro, o objetivo passa por transformar novamente a associação no centro da vida comunitária da freguesia. “Queremos que esta casa volte a ser o coração da aldeia. Queremos que as pessoas convivam, que os jovens apareçam, que haja desporto, festas, cultura e vida.” 

No final, deixa um apelo à população: “Esta casa não é da direção. Esta casa é das pessoas. E aquilo que eu mais peço é que apareçam, participem e façam parte disto connosco.”