Aumento dos preços de combustíveis afeta transportadoras 

O aumento dos preços dos combustíveis tem provocado impacto nas receitas das empresas de transportes, com a Nacex Ourém e a Transportes Coelho Mariano a apontarem gastos de perto dos 50% em gasóleo.  

EVA GOMES

O escalar da tensão militar entre os Estados Unidos da América e o Irão, provocou um aumento acentuado do preço dos combustíveis, nas últimas semanas. Com um mercado instável, o Notícias de Ourém foi conversar com duas empresas de transportes, a Nacex Ourém e Transportes Coelho Mariano, acerca do impacto dos aumentos do gasóleo.  

Desde o mês de março, o combustível já aumentou 10 cêntimos por litro, tendo variado de semana para semana o valor.  

O Governo português, para aplacar a subida repentina dos preços, aplicou um desconto adicional de Imposto sobre os Produtos Petrolíferos e Energéticos (ISP), de 11,38 cêntimos no gasóleo e de 14,28 cêntimos na gasolina. 

Contrariamente à opinião dos empresários do setor dos transportes, o Primeiro-ministro Luís Montenegro, rejeita aplicar o IVA Zero nos combustíveis, alegando não ser necessário pois “todo o valor que o aumento do preço [dos combustíveis] impacta no IVA [desses mesmos produtos] está a ser devolvido no ISP [Imposto sobre os Produtos Petrolíferos]. “ 

No final de março, o Conselho de Ministros aprovou um pacote de medidas para fazer face ao aumento dos preços do combustível, de 150 milhões de euros por mês, a vigorar de abril a junho. Estes apoios pressupunham um mecanismo extraordinário para o gasóleo profissional.  

Esta medida, no entanto, seria apenas aplicada nas semanas em que o preço do combustível estivesse superior ao aumento inicial de 10 cêntimos. 

Na perspetiva de Joel Reis, administrador da Transportes Coelho Mariano, “foram prometidos apoios, mas ainda não vimos praticamente nada e não sei se vão chegar para suportar este primeiro impacto do prejuízo”. 

O caso da Nacex 

A Nacex Ourém está aberta há cerca de 20 anos. O franchise da empresa transportadora espanhola faz entregas e recolhas na região que rodeia o concelho de Ourém. 

O gerente, Ricardo Pereira, explica que o seu franchising tem uma frota de oito viaturas ligeiras, ou seja, carrinhas de transporte de mercadorias. “Transportamos de tudo, especialmente medicamentos para farmácias e hospitais”, aponta. 

“Por média, recebemos cerca de 500 a 600 entregas para fazer, por dia”, sublinha o gerente. O volume alto de entregas implica quilómetros e quilómetros que as viaturas do franchisado fazem.  

“Estávamos a gastar 4 mil euros por mês em combustível e, com a subida, aumentou 40%, ou seja, perto dos 5 mil euros”, explica o gerente. Para um franchising da dimensão da de Ricardo, o impacto é imenso. 

“O essencial é o combustível” estando a prejudicar o negócio, mesmo com a taxa de combustível paga pelo cliente. “Não é suficiente para fazer face à subida dos preços”, explica Ricardo. 

“Não aumentámos para não prejudicar o cliente, estamos a ser nós a suportar isso, mas não está fácil”, refere o gerente. 

Ricardo conta que, em breve, terá uma reunião com a marca espanhola, para serem discutidas soluções.  

O problema é global, e a própria Nacex, enquanto grupo, está a sofrer prejuízos devido ao preço dos combustíveis. “São eles que garantem as deslocações entre plataformas logísticas”, explica Ricardo Pereira. 

O gerente da Nacex Ourém compara as medidas tomadas pelo governo espanhol com as do governo português: “em Espanha reduziram logo o IVA”. 

“O nosso Governo podia nos ajudar neste momento, baixando os impostos para empresas, porque há muitas empresas que não se vão aguentar”, aponta Ricardo. 

O caso da Transportes Coelho Mariano 

A Transportes Coelho Mariano, empresa de transporte de mercadoriassediada em Fátima, encontra-se a atuar neste mercado há mais de 40 anos. Nestas quatro décadas, passou por vários períodos difíceis, mas nenhum como o de agora, de acordo com o administrador Joel Reis. 

“Estamos a ter um gasto adicional de cerca de 60 mil euros no gasóleo profissional, o que reflete um aumento de cerca de 50%”, explica Joel. A Transportes Coelho Mariano tem uma frota composta por 60 veículos pesados. 

Apesar de atuar essencialmente em território francês e belga, muitas das mercadorias partem de Portugal. O impacto nas receitas é imediato, acabando por levar a empresa a “operar em prejuízo”.  

“O custo tem todo de ser refletido no consumidor final, mas a cadeia (económica) é lenta a refletir estes aumentos de custos”, sendo que empresas como a de Joel têm um impacto direto nos primeiros momentos de crise. 

Numa situação em que as reservar de combustível portuguesas falhem, uma possibilidade adiantada pelo semanário Expresso, “este é um setor que tem de continuar” a funcionar. Em causa está toda a cadeia económica global, em que o consumidor deixa de ter acesso a produtos de toda a génese, desde alimentar a lúdica. 

Joel Reis critica fortemente o Governo português nas medidas adotadas até então: “foram prometidos vários apoios que não têm impacto nenhum”.  

“Da mesma forma que foram reduzindo o ISP, foram cortando no gasóleo profissional”, sublinha o administrador. Efetivamente, desde que os preços dos combustíveis baixaram, no dia 20 de abril, o Governo retirou os descontos especiais ao ISP. 

Foi ainda adiantado pelo Governo, um “período de graça”, de abril a junho, em que as empresas de transportes de carga teriam mais tempo para pagar as contribuições à Segurança Social.  

“Irmos pagar mais tarde a Segurança Social vai criar problemas a longo prazo. Ficamos agora três meses sem pagar e chegamos a julho e temos de pagar quatro meses de segurança social, ninguém sabe como vai fazer para arcar com os custos”, sublinha Joel. 

Afasta também a opção de dar empréstimos às empresas, porque acredita que irá acentuar o endividamento de muitos negócios. 

A solução, na visão do administrador da Transportes Coelho Mariano, seria uma isenção parcial na Segurança Social. “Temos de pensar a longo prazo, porque estas soluções só vão ter impacto daqui a um ou dois anos”, refere. 

“O gasóleo profissional deveria de retornar à forma como trabalhava ou como se faz em Espanha”, sugere Joel Reis. 

O administrador da transportadora tece elogios ao governo espanhol, que atuou de forma direta assim que os preços subiram. “O gasóleo profissional em Espanha era devolvido 4,9 cêntimos por litro, antes desta crise, agora passam a ser 20 cêntimos”, explica. 

Caso a situação de instabilidade no mercado dos combustíveis se mantenha, Joel reconhece que poderá ter de parar uma parte da sua frota, para diminuir custos e “não ter de despedir trabalhadores”.