Uma crónica em tempo de crise 

Por Mafalda Cardoso

“Não há força maior que a da natureza. Esquecemo-nos disso com facilidade. Esquecemos que está viva e tem o que dizer. (…) Até o vento entrar de rompante e reorganizar o território, as prioridades e até a escala das coisas. Esquecemos, mas só até sermos obrigados a lembrar” 

Para quem escrevo hoje? 

Alguém que segura estas páginas do jornal, escolhe parar por estas letras e ficar por uns minutos. 

É sempre uma responsabilidade entregar um texto – mas este, em particular. Para nós, ourienses. 

Não há força maior que a da natureza. Esquecemo-nos disso com facilidade. 

Esquecemos que está viva e tem o que dizer. 

Seguimos em rotinas onde tudo parece organizado à nossa medida, previsível e controlado – até deixar de ser. Até o vento entrar de rompante e reorganizar o território, as prioridades e até a escala das coisas. 

Esquecemos, mas só até sermos obrigados a lembrar. 

Hoje o nosso concelho é um lugar mais triste, com menos árvores, muita destruição, casas feridas e isolamento que talvez nem nos chegue à vista. 

Mas é também – e isso impõe-se com igual força – um lugar de tanta solidariedade. 

Gente que nunca se tinha falado a trabalhar lado a lado, a subir ao alto de telhados de casas pelas quais tantas vezes passavam, ou de casas que nunca tinham visto; 

braços desconhecidos a carregar a mesma árvore caída em estradas tantas vezes percorridas, ou que onde passam pela primeira vez. 

Portas abertas a quem precisava de tomar um banho quente, dormir numa cama seca, ter uma refeição. 

Confesso que neste arranque de ano os meus olhos se encheram de lágrimas mais do que estiveram secos, 

muitas de tristeza, angústia e assoberbamento, 

mas também, e tantas vezes, de comoção pela camaradagem que desta crise nasceu.  

Sem olhar a estatutos, histórias passadas ou diferenças. 

No meu caso, a tempestade começou longe. Acordei em São Miguel, nos Açores, com mensagens da madrugada: “parece que o mundo vai acabar”. Soou exagerado – até deixar de soar. Durante horas não consegui falar com parte da minha família. O mapa encolheu ao tamanho das pessoas de quem não tinha notícias. 

Quando regressei, percebi. Postes tombados, cabos pelo chão, telhados abertos, ruas irreconhecíveis. Casas onde entrámos só para segurar lonas antes da chuva voltar. Gente que não pedia muito, só alguém ali. 

E, de repente, também nós tivemos de sair.  

Disseram-nos para levar “as coisas de valor”. O que é valioso para mim, se não a casa toda? 

Somos evacuados de lugares físicos que ficam para trás, mas cujo peso vem às nossas costas. Perderei tudo? Não, porque “as coisas de valor” trouxe-as comigo. Os meus cadernos, a máquina fotográfica e uma lista de outros itens que antes de devolver à casa devo questionar porque considerei “de valor”. 

Há dias que vivo de casa emprestada em casa emprestada, com uma mala pronta e a sensação estranha de que o lugar onde deveria repousar a cabeça pode deixar de existir de um momento para o outro.  

Talvez seja isto que fica depois do vento: perceber que a estabilidade era, afinal, um acordo frágil entre nós e o mundo. E que aquilo a que chamamos comunidade não nasce da afinidade, nasce sim da necessidade de cuidarmos uns dos outros quando tudo o resto falha. 

E talvez seja assim que uma terra reaprende o seu nome: quando volta a caber dentro das pessoas.