O conforto das pequenas coisas 

Por João Filipe Oliveira

A tempestade foi um daqueles momentos das nossas vidas que deixa memórias profundas. E que nos permite avaliar como, ao longo dos anos, as nossas rotinas se tinham alterado quase sem darmos por isso. Alguns dizem que os últimos 50 anos foram uma desgraçaa, que não se avançou nada, numa bizarra ideia saudosista, um imaginário passado glorioso debaixo do olhar vigilante da PIDE. 

A tempestade foi uma espécie de viagem no tempo. Deu para recuar esses 50 anos em poucas horas e fazer a experiência de como era “bom” viver naquele tempo. 

Toda a gente ficou sem eletricidade, sem telefone e sem água canalizada. Mais ou menos as condições do início dos anos 70. Carregar água a baldes para usar em casa, lavar-se num alguidar com água aquecida numa panela. Como eram confortáveis aqueles tempos! 

Em 1976, há 50 anos, a eletricidade começava a chegar às aldeias. Tirando um caso ou outro que se dava ao luxo de ter um gerador, naquele tempo todos se serviam com a luz da candeia ou do candeeiro a petróleo. 

Televisão, não havia. O rádio é que nos punha em contacto com o mundo lá fora, até porque os caminhos eram impraticáveis, principalmente nos tempos de chuva. E os telefones eram um luxo reservado a privilegiados. 

Sim, a televisão. Faltava a televisão. E faltava a internet, que ainda não tinha sido inventada. Por estes dias de 2026 a televisão fez muita falta a tanta gente. Dependentes de tecnologias mais modernas, tínhamos esquecido as antigas antenas, que afinal ainda foram úteis a alguns, para trazer um pouco de conforto no meio do desespero. Quanto mais não fosse, para encontrar na desgraça alheia um alívio para as nossas dores, porque há sempre quem esteja ainda pior do que nós. E para nos surpreendermos com a dimensão, muito para além do que tínhamos imaginado. 

E há 50 anos não havia apoios do Estado. Na crise em que a Kristin nos lançou, ouvimos uma espécie de refrão de boca em boca: “ninguém” nos veio ajudar, “ninguém” nos perguntou se precisávamos de alguma coisa. Parece que nos últimos 50 anos as pessoas começaram a ver o Estado (governo, autarquias, proteção civil, exército, bombeiros, polícia) como se fosse o santo protetor de todos nós. A demasiada a gente pareceu natural exigir que o Estado resolvesse em 24 horas todas as dificuldades e toda a destruição que se abateram sobre um quarto do território nacional. Todos esperam que o Estado pague os danos causados, reponha a luz, os telefones e a banda larga por fibra ótica. Em 48 horas, de preferência. Houve até um político (e muitos comentadores) que gritou que não tinha havido prevenção, como se o Estado tivesse poder para evitar que viesse a tempestade. 

E a Europa… há 50 anos Portugal não estava na União Europeia (nem na CEE, claro), ainda se tirava o passaporte e se carimbava só para ir a Espanha. Os fundos europeus para catástrofes ainda não existiam nem na imaginação. Hoje temos uma multidão que exige apoios europeus, no terreno, e já! 

Afinal as pequenas coisas de todos os dias, que nos parecem tão naturais a ponto de já nem pensarmos nelas, têm muito mais valor do que costumamos dar-lhes.  

Por alguns dias foi-nos oferecida a possibilidade de recuar aos tempos alegadamente gloriosos de há 50 anos. Mas suspeito que ninguém terá gostado muito da ideia. Talvez comecem a pensar melhor, antes de pedir um regresso definitivo ao passado.