Festa do Avante!  – o silêncio ensurdecedor –

Por António Galamba

Escreve a conceituada antropóloga Paula Godinho – que tive o privilégio de ter como professora – numa publicação nas redes sociais em que visa a Festa do Avante!: “critérios editoriais explicáveis pelo preconceito, os estereótipos, a cassete neoconservadora, que é hegemónica, impediram-nos de ter nos espaços noticiosos públicos uma cobertura decente de uma festa que será provavelmente, incluindo muitos festivais de verão, das que mais gente congrega, sobretudo de quadrantes políticos à esquerda. Os critérios editoriais são duvidosos, não são obviamente neutros, e resultam de uma escolha política, que invisibiliza o que pode ter interesse público” 

Se tivermos em conta que o sinal biológico da democracia nos é dado através dos poros transpirantes da comunicação social livre, saberemos então tomar o pulso a um regime neoliberal de cariz fascizante que a adoece, que filtra o interesse público, que nos invade o quotidiano com o medo. Sistema que, armado dos meios comunicacionais hegemónicos que o servem, nos acicata o receio e que o dirige, em violência, ao confronto com o semelhante, fazendo-nos acreditar que o que torna os dias azedos não é o ciclo vicioso do capitalismo, da exploração do homem pelo homem, mas sim a diferença superficial e biológica (reflexo da adaptação ao meio) que, ao senso comum, nos torna de imediato diferentes e dignos do estereótipo. 

Ilustração de Bruno Ferraz

Só o serviço a estes interesses explica o silêncio ensurdecedor a que votaram, uma vez mais, a maior manifestação de vontade coletiva existente no nosso país. Pouco lhes interessa a dimensão dos nomes que por lá passam e fazem da Festa do Avante! aquilo que indubitavelmente ela é:  o maior evento anual de cultura em Portugal. Bastava isto para que o silêncio da comunicação social fosse facilmente entendido como preconceituoso, tendencioso, não democrático. Mas a Festa é mais. Muito mais. E quanto mais é, maior é o significado da sua ocultação nos espaços noticiosos. Como pode o dominante permitir e publicitar uma festa organizada, contruída, montada por milhares de operários para operários, ainda para mais obtendo a dimensão de aceitação e participação que obtém? Como pode o grande patronato dar visibilidade à solidariedade combativa daqueles que resistem e, com a Festa, provam que a sociedade em que vivemos pode ser outra, mais fraterna, mais justa, com mais equitativa distribuição da riqueza e melhor fruição do tempo que nos coube.  Como podem os senhores disto tudo conviver com a generosidade de quem oferece dias de férias às jornadas de implementação? Como podem suportar a alegria do exausto que voluntariamente se oferece para que estes três dias possam ser a terna amostra do mundo em que acreditam e pelo qual lutam?  

Mas a Festa, esta força coletiva, é rio livre em leito estreito. Acaba sempre por se fazer saber. E então, se não aparecem as dezenas de concertos, se não dão eco ao teatro, às apresentações de livros, aos debates, às imensas atividades desportivas, às crianças rindo, às propostas concretas para a vida do país, inventam, mentem despudoradamente e sem vergonha. Porque os comunistas, se o são, têm de ser pedintes mas têm um terreno deles onde fazem a festa (cansados de serem expulsos dos terrenos públicos que solicitavam às autarquias, organizaram-se e, em solidariedade, compraram a Quinta da Atalaia e, recentemente, a Quinta do Cabo); Porque há terroristas no meio deles (estranho nome atribuído pelo agressor a quem se defende da agressão – não foi assim com Mandela, também ele acarinhado pela Festa?); Porque os comunistas cobram caro e não pagam IVA  ( isto com os títulos de solidariedade que dão acesso à festa e que custam, para três dias, 45 euros. Às claras! Quanto IVA pagarão as dádivas milionárias oferecidas aos partidos que defendem o statu quo, e que ninguém sabe de onde vêm?); Por que continuam a comer criancinhas ao pequeno-almoço e na Coreia do Norte todos têm o mesmo corte de cabelo (os que sobraram dos atos de canibalismo). 

Enfim, não chega o espaço que me é reservado para a dimensão do dizer. Nestas coisas, o mais é convidar quem me lê. Para o ano, como sempre no primeiro fim de semana de Setembro, repetem-se os dias da cultura e da alegria. Quanto mais não seja a baía do Seixal merece ser vista do alto. Há uma roda gigante! Como a vontade de transformar o mundo no coração dos comunistas.  

Correio do leitor: antonio.galamba@gmail.com